COMENTÁRIO BÍBLICO JÓ 1.4-5 Quais foram os pecados dos filhos de Jó?



por Lucio Manoel

Jó 1.4-5
É recomendável a leitura dos dois primeiros capítulos para melhor compreensão do contexto.

Os versículos que aparecem entre aspas são minha tradução a partir do Texto Hebraico, para servir aos leitores na comparação com outras versões em Português.
“E iam seus filhos e faziam festa (banquete, almoço), cada casa em seu dia;  e enviaram e chamaram as suas três irmãs para comer e beber com eles. Aconteceu pois o rodízio dos dias da festa; e enviou Jó e os santificou, e se levantou de manhã bem cedo e levantou (ofereceu) holocaustos do número de todos eles, pois disse Jó: talvez os meus filhos tenham pecado e amaldiçoado (blasfemado) a Deus em seu coração.” 

No mundo antigo, como em Israel posteriormente, haviam muitas festas. Festas que duravam dias. O texto não identifica uma festa específica. Não há nenhum significado especial na palavra הַמִּשְׁתֶּ֜ה, pois pode indicar uma festa ou uma simples refeição (Gn 19.3). Pode se tratar de uma festa típica, como colheita, ou uma festa familiar. Festa de colheita não era exclusiva do povo de Israel. 

 Esta festa, como outras, demorou vários dias. Estes versículos parecem sugerir que cada dia da festa era realizada na casa de um dos filhos. Se considerado que Jó teve sete filhos homens, a festa deve ter durado sete dias. As três irmãs foram chamadas a se juntar aos irmão, mas elas não foram contadas no rodízio na festa. Talvez porque ainda estivessem na casa dos pais ou porque a contagem ficasse apenas por conta dos filhos homens, como era costume.

Não está claro se os filhos de Jó eram casados. Neste caso, o número de participantes das reuniões festivas podia ser maior. Mas se não eram casados, pelo menos, já eram adultos e tinham vidas independentes. Moravam em suas próprias casas. Eram responsáveis por si mesmos. Jó não estava com seus filhos o tempo todo. Nada é dito do fato que Jó não participava das festas. Talvez ele se achasse fora da idade para participar das festas dos jovens. 

Os pais e oficiais não devem impedir os encontros festivos dos jovens da igreja. O que não é recomendável de jeito nenhum é festa com os de fora (os filhos de teimavam em família). Se os filhos dos crentes e demais jovens da igreja temem a Deus, o cuidado dos pais e dos oficiais será o meio para Deus preserva-los do mal.

Apesar da independência dos filhos ao oitavo dia Jó se apressou a santificá-los e a interceder por eles. Nos tempos mais remotos, especialmente antes da instituição do sacerdócio levítico em Israel, cabia ao pai de família, as funções sacerdotais que mais tarde seriam atribuídas a Arão e a seus filhos. Pode ser levantado a questão que Jó suspeitava que as festas serviam à bebedice (em função do uso da palavra festa que deriva do verbo beber) ou até coisa pior. Sem negar essa hipótese, nada disso está afirmado no texto. O que está em destaque é o cuidado de um pai que sabe da exposição ao pecado a que os filhos estão submetidos.

Seus filhos e filhas estavam festejando, brincando, comendo e bebendo. Essa combinação podia oferecer ocasião para o pecado. Os ânimos podiam ficar alterados. Podiam acontecer excessos nas brincadeiras. Alguns podiam se sentir mais à vontade para tirar brincadeiras ofensivas. Outros podiam assumir atitudes libertinas. Ainda outros podiam  aproveitar a situação para desabafar suas mágoas. As possibilidades de alguma coisa dar errado eram tantas que Jó pensou “Talvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração”. 

“Talvez” é uma palavra importante, porque Jó não está remediando uma situação pecaminosa criada por seus filhos, mas ele está preocupado com a honra de Deus e com a consequência de possíveis pecados para seus filhos.

Podia até não ter acontecido nada de mais grave nas festas. Mas as vezes alguém que se comporta de maneira adequada, ainda pode carregar grandes males no coração. Jó sabia disso. Por essa razão, ele sempre se colocava entre Deus e seus filhos: "Dessa maneira fazia Jó todos os dias.” O cuidado de Jó com os filhos era recorrente. 

Jó queria, de um lado, proteger a santidade de Deus dos possíveis pecados dos seus filhos, mas também proteger a seus filhos dos castigos que Deus poderia infringir sobre eles, caso estivessem ofendido a Deus, mesmo que fosse com os pecados ocultos do coração.

Até aqui pode-se notar que não há nada de errado com os filhos de Jó. E existe razão bíblica para essa conclusão: o bom testemunho dos filhos de Jó faz parte de seu bom testemunho diante da sociedade de sua época.

O bom testemunho de Jó é atestado pelo narrador do livro - é disso que trata os versos 1-5 (especialmente o verso primeiro). Mas o narrador faz questão de atestar que o próprio Deus dá bom testemunho de Jó (1.8; 2.3). Se fosse o caso que os filhos de Jó fossem péssimos exemplos de jovens; se eles fossem conhecidos pelos escândalos de bebedice e orgias em família, isso com certeza afetaria o bom testemunho de Jó perante a sociedade e invalidaria o testemunho que o próprio Deus deu dele.

Por que então comumente se fala dos pecados dos filhos de Jó? A suspeita recai sobre aqueles que tratam o simples uso de bebida alcoólica como pecado. Estas pessoas tendem a acusar os filhos e filhas de Jó de beberrões pecadores. Isso é no mínimo um equívoco, mas pode mesmo ser um grave pecado. Equívoco porque estas pessoas não conseguem distinguir o que a Bíblia fala sobre o bom uso da bebida do uso pecaminoso dela. Aqui não é lugar para explicar esse particular. Mesmo assim, é recomendável observar o uso positivo que a Bíblia faz da bebida (não apenas suco de uva, mas vinho e bebida forte). Observe especialmente as seguintes passagens (Dt 14.26; Sl 104.15). Apesar disso, a Bíblia condena a embriaguez (1Co 5.11; 6.10) e o escândalo (Rm 14.13; 16.17), e restringe o uso da bebida alcoólica em situações especiais (Lv 10.9). Porém, não peca aquele que faz uso adequado da bebida, mas aquele que, conscientemente, o acusa de não seguir as normas humanas adotadas por seu grupo. 

Estas anotações fazem parte da exegese de Jó 1.1-5 que serviu à pregação na Igreja Reformada de Maceió.

Para assistir ao vídeo da pregação, clique Aqui.






#LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

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