segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

IMAGENS SAGRADAS PODEM SERVIR COMO LIVRO PARA IGNORANTES?



por Vivius Silva Pimentel

As discussões dos últimos dias sobre a suposta validade de "imagens pedagógicas" de Cristo me levaram a reler o capítulo 11 do primeiro livro das Institutas. Trata-se dum capítulo em que se apresenta com especial clareza não apenas a sabedoria de Calvino, mas também a sua (nem sempre tão) fina ironia.

A certa altura, ao discutir o argumento de que imagens são "livros para indoutos", Calvino sai com esta tirada cavalar: "Há uma simples razão pela qual aqueles que têm igrejas a seu encargo entregam o ofício do ensino aos ídolos: é porque eles próprios são burros".

A grosseria talvez seja desnecessária, mas o argumento que a precede é bíblico e valioso: tudo o que as imagens nos ensinam a respeito de Deus é necessariamente "fútil e falso". O madeiro é "ensino de vaidade", diz Jeremias (10.8), e a imagem de fundição apenas "ensina mentira", diz Habacuque (2.18). Fazer representações visíveis de Deus é absurdo não apenas porque "imagens corpóreas são indignas da majestade divina", mas também porque elas "diminuem o temor reverente e encorajam o erro".

Calvino também refuta o argumento (tão repetido nas últimas discussões) de que as imagens podem ser usadas apenas para "representar Deus" e não para adoração. Na verdade, ele toma o argumento de Agostinho, que, ao comentar o Salmo 113, condena também esse tipo "mais refinado" de religiosidade como sendo idólatra.

Como se estivesse lendo as discussões aqui no Facebook, Calvino também rebate quem o acusava de ser supersticioso ao ponto de rejeitar todo tipo de imagens, reconhecendo que pinturas e esculturas são "dons de Deus" para serem usados de modo digno e puro. Mas ele insiste: "pensamos ser ilícito dar uma forma visível a Deus, porque o próprio Deus o proibiu e porque isso não pode ser feito sem, em alguma medida, manchar a sua glória". Essa proibição divina se acha não apenas no Antigo Testamento, mas também no Novo, e Calvino faz uma interessante inferência de 1João 5.21, no qual o apóstolo nos exorta a nos acautelarmos não apenas do culto aos ídolos, mas dos ídolos mesmos.

É claro que ninguém é obrigado a concordar com as conclusões de Calvino, ao menos pelo simples fato de virem da boca do reformador. Mas é um tanto curioso que os argumentos sejam os mesmos rebatidos há quase cinco séculos e, apesar disso, não tenhamos visto muita interação com eles. O que me faz concluir algo sobre minha própria postura estes dias: se os que discordam não levam a sério o que escreveram os maiores defensores dessa posição, por que levariam a sério um verme como eu?

Como diria o Pernalonga... Isso é tudo, pessoal!



Presbítero da Igreja Presbiteriana da Aliança em Recife/PE. Bacharel e Mestrando em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Comentarista do Site Política Reformada.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

COMENTÁRIO BÍBLICO JÓ 1.4-5 Quais foram os pecados dos filhos de Jó?



por Lucio Manoel

Jó 1.4-5
É recomendável a leitura dos dois primeiros capítulos para melhor compreensão do contexto.

Os versículos que aparecem entre aspas são minha tradução a partir do Texto Hebraico, para servir aos leitores na comparação com outras versões em Português.
“E iam seus filhos e faziam festa (banquete, almoço), cada casa em seu dia;  e enviaram e chamaram as suas três irmãs para comer e beber com eles. Aconteceu pois o rodízio dos dias da festa; e enviou Jó e os santificou, e se levantou de manhã bem cedo e levantou (ofereceu) holocaustos do número de todos eles, pois disse Jó: talvez os meus filhos tenham pecado e amaldiçoado (blasfemado) a Deus em seu coração.” 

No mundo antigo, como em Israel posteriormente, haviam muitas festas. Festas que duravam dias. O texto não identifica uma festa específica. Não há nenhum significado especial na palavra הַמִּשְׁתֶּ֜ה, pois pode indicar uma festa ou uma simples refeição (Gn 19.3). Pode se tratar de uma festa típica, como colheita, ou uma festa familiar. Festa de colheita não era exclusiva do povo de Israel. 

 Esta festa, como outras, demorou vários dias. Estes versículos parecem sugerir que cada dia da festa era realizada na casa de um dos filhos. Se considerado que Jó teve sete filhos homens, a festa deve ter durado sete dias. As três irmãs foram chamadas a se juntar aos irmão, mas elas não foram contadas no rodízio na festa. Talvez porque ainda estivessem na casa dos pais ou porque a contagem ficasse apenas por conta dos filhos homens, como era costume.

Não está claro se os filhos de Jó eram casados. Neste caso, o número de participantes das reuniões festivas podia ser maior. Mas se não eram casados, pelo menos, já eram adultos e tinham vidas independentes. Moravam em suas próprias casas. Eram responsáveis por si mesmos. Jó não estava com seus filhos o tempo todo. Nada é dito do fato que Jó não participava das festas. Talvez ele se achasse fora da idade para participar das festas dos jovens. 

Os pais e oficiais não devem impedir os encontros festivos dos jovens da igreja. O que não é recomendável de jeito nenhum é festa com os de fora (os filhos de teimavam em família). Se os filhos dos crentes e demais jovens da igreja temem a Deus, o cuidado dos pais e dos oficiais será o meio para Deus preserva-los do mal.

Apesar da independência dos filhos ao oitavo dia Jó se apressou a santificá-los e a interceder por eles. Nos tempos mais remotos, especialmente antes da instituição do sacerdócio levítico em Israel, cabia ao pai de família, as funções sacerdotais que mais tarde seriam atribuídas a Arão e a seus filhos. Pode ser levantado a questão que Jó suspeitava que as festas serviam à bebedice (em função do uso da palavra festa que deriva do verbo beber) ou até coisa pior. Sem negar essa hipótese, nada disso está afirmado no texto. O que está em destaque é o cuidado de um pai que sabe da exposição ao pecado a que os filhos estão submetidos.

Seus filhos e filhas estavam festejando, brincando, comendo e bebendo. Essa combinação podia oferecer ocasião para o pecado. Os ânimos podiam ficar alterados. Podiam acontecer excessos nas brincadeiras. Alguns podiam se sentir mais à vontade para tirar brincadeiras ofensivas. Outros podiam assumir atitudes libertinas. Ainda outros podiam  aproveitar a situação para desabafar suas mágoas. As possibilidades de alguma coisa dar errado eram tantas que Jó pensou “Talvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração”. 

“Talvez” é uma palavra importante, porque Jó não está remediando uma situação pecaminosa criada por seus filhos, mas ele está preocupado com a honra de Deus e com a consequência de possíveis pecados para seus filhos.

Podia até não ter acontecido nada de mais grave nas festas. Mas as vezes alguém que se comporta de maneira adequada, ainda pode carregar grandes males no coração. Jó sabia disso. Por essa razão, ele sempre se colocava entre Deus e seus filhos: "Dessa maneira fazia Jó todos os dias.” O cuidado de Jó com os filhos era recorrente. 

Jó queria, de um lado, proteger a santidade de Deus dos possíveis pecados dos seus filhos, mas também proteger a seus filhos dos castigos que Deus poderia infringir sobre eles, caso estivessem ofendido a Deus, mesmo que fosse com os pecados ocultos do coração.

Até aqui pode-se notar que não há nada de errado com os filhos de Jó. E existe razão bíblica para essa conclusão: o bom testemunho dos filhos de Jó faz parte de seu bom testemunho diante da sociedade de sua época.

O bom testemunho de Jó é atestado pelo narrador do livro - é disso que trata os versos 1-5 (especialmente o verso primeiro). Mas o narrador faz questão de atestar que o próprio Deus dá bom testemunho de Jó (1.8; 2.3). Se fosse o caso que os filhos de Jó fossem péssimos exemplos de jovens; se eles fossem conhecidos pelos escândalos de bebedice e orgias em família, isso com certeza afetaria o bom testemunho de Jó perante a sociedade e invalidaria o testemunho que o próprio Deus deu dele.

Por que então comumente se fala dos pecados dos filhos de Jó? A suspeita recai sobre aqueles que tratam o simples uso de bebida alcoólica como pecado. Estas pessoas tendem a acusar os filhos e filhas de Jó de beberrões pecadores. Isso é no mínimo um equívoco, mas pode mesmo ser um grave pecado. Equívoco porque estas pessoas não conseguem distinguir o que a Bíblia fala sobre o bom uso da bebida do uso pecaminoso dela. Aqui não é lugar para explicar esse particular. Mesmo assim, é recomendável observar o uso positivo que a Bíblia faz da bebida (não apenas suco de uva, mas vinho e bebida forte). Observe especialmente as seguintes passagens (Dt 14.26; Sl 104.15). Apesar disso, a Bíblia condena a embriaguez (1Co 5.11; 6.10) e o escândalo (Rm 14.13; 16.17), e restringe o uso da bebida alcoólica em situações especiais (Lv 10.9). Porém, não peca aquele que faz uso adequado da bebida, mas aquele que, conscientemente, o acusa de não seguir as normas humanas adotadas por seu grupo. 

Estas anotações fazem parte da exegese de Jó 1.1-5 que serviu à pregação na Igreja Reformada de Maceió.

Para assistir ao vídeo da pregação, clique Aqui.






#LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

COMENTÁRIO BÍBLICO LEVÍTICO 10.1-2 O que era o Fogo Estranho?



por Lucio Manoel

Levíticos 10.1-2

É recomendável a leitura dos capítulos 9 e 10 para melhor compreensão do contexto.

“Os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário (braseiro) e acenderam (puseram) nele fogo e colocaram sobre ele incenso; e aproximaram diante de Yahwweh fogo estranho que não tinha ordenado a eles. E saiu fogo de diante de Yahweh e consumiu eles; e morreram diante de Yahweh.”

Para que o leitor possa fazer comparações com as versões em Português, os versículos que são citados entre aspas são minha tradução do Texto Hebraico.

Algumas passagens bíblicas mostram pessoas comuns usando incensário, como no episódio da rebelião contra Deus, à porta da tenda da congregação (Nu 16). Mas o ato de queimar incenso é descrito posteriormente como serviço sagrado dos sacerdotes (Ex 30.1-10; 40.1-9; 16-27; Lv 16.1,12-13; Nu 16.40). 

Este capítulo dez de Levítico é um desdobramento negativo do capítulo 9. Dois dos novos sacerdotes, Nadabe e Abiú, filhos mais velhos de Arão, realizavam seus primeiros trabalhos no tabernáculo: oferecer incenso diante do SENHOR. Mas o serviço foi feito de modo diferente do que o SENHOR havia ordenado. Resultado: o SENHOR não aceitou a oferta, antes enviou fogo e matou Nadabe e Abiú. 

Fogo do SENHOR havia queimado as ofertas oferecidas sobre o altar, por ocasião da consagração destes sacerdotes (Lv 9.24). Este fogo pode ter subido da terra ou, o que é mais provável, descido do céu. Doze vezes se encontra no Antigo Testamento fogo descendo do céu (2Re 1.10). Claro é que ele procedera do SENHOR, em ambos casos.

Os sacrifícios oferecidos sobre o altar costumavam ser queimados totalmente até virar cinzas (Lv 6.10; 9.24). Neste caso, porém, algo diferente aconteceu com este fogo que saiu do SENHOR. Ele não consumiu totalmente a Nadabe e Abiú, nem mesmo suas vestes (Lv 10.5).

O fogo da ira de Deus consome. Deus é fogo consumidor (Lv 24.17; Nu 16.35; Dt 4.24; Am 1.12; 2.5; Hb 12.29). Quando o SENHOR derramou fogo sobre os sacrifícios (Lv 9.24), Ele indicou que aceitara a oferta oferecida pelo seu povo, a fim de não puni-lo. Assim funcionavam os sacrifícios em Israel. Eles eram uma lembrança e uma promessa que indicava que os israelitas eram aceitos diante de Deus, porque Deus propôs desviar sua ira de sobre os sacrificantes, descarregando-a sobre os animais. Essa instituição era provisória e ajudava o povo a aguardar a oferta perfeita que poria fim aos sacrifícios sangrentos (Hb 10).

Nesta passagem, porém,  Deus não aceitou a oferta do incenso queimado em sua presença, por isso enviou fogo sobre Nadabe e Abiú que morreram diante do SENHOR. Se é certo que eles entraram no Santo dos Santos - ver anotações posteriores, então foi diante da arca do testemunho que tombaram sem vida.

Nadabe a Abiú ofereciam o incenso. A descrição do serviço de oferecer incenso no tabernáculo gera alguma discussão em razão da localização do altar do incenso. Parece que, inicialmente, ele estava dentro do Santo dos Santos, juntamente com a arca da aliança (Ex 40.5; Hb 9.4). Posteriormente, precisamente por causa deste incidente que estamos avaliando, Deus muda o altar de lugar, e, consequentemente, acontece alguma mudança no modo como o serviço é realizado. Voltaremos a este ponto mais adiante.  

O altar era pequeno, de cerca de cinquenta centímetro quadrado, posicionado a um metro do chão (Ex 30.1-10). O incensário ou braseiro (Ex 27.3; 38.3; Lv 16.12) servia, provavelmente, tanto para transportar brasas do Altar do Sacrifício para o altar do incenso como para acender o fogo nele mesmo. 

Cada um deles tomou seu braseiro ou incensário e "deram fogo nele" וַיִּתְּנ֤וּ בָהֵן֙ אֵ֔שׁ. “acenderam (puseram) nele fogo e colocaram sobre ele incenso” bate com o serviço que Arão passou a fazer anualmente, no dia da Expiação (Lv 16.10-12). Essa sentença pode referir-se a acender o fogo diretamente no braseiro, ou, como vai ficar claro pela descrição de Levíticos 16.12, tomar brasas já acessas do altar (na minha opinião, o altar de sacrifícios, embora alguns pensem se tratar do altar de incenso). Acrescentaram incenso em pó sobre o fogo. O incenso devia ser uma combinação exclusiva de fragrância (Ex 30.34-38).

Nadabe e Abiú “aproximaram” o fogo estranho para Yahweh. Essa expressão pode indicar que Nadabe e Abiú entraram no Santo dos Santos. Esta é a designação mais usada para se referir a presença de Deus no tabernáculo (Ex 16.33; 27.21; 28.29,30; Lv 4.17). Eles levaram o incenso para além do véu, para diante de Yahweh. Até este momento, a Escritura não determinava os limites quanto ao número de vezes que se entraria no Santo dos Santos. Ao que parece, a restrição só foi dada quando da normatização do Dia da Expiação, e ligada com a morte de Nadabe e Abiú (Lv 16.1-2).

Retomada
Agora, voltem ao versículo primeiro, e prestem atenção à expressão “fogo estranho”. Algumas outras passagens bíblicas fazem referência ao incidente destacando que isso aconteceu “quando levaram fogo estranho perante Yahweh” (Nu 26.1), “ofereciam fogo estranho perante Yahweh (Nu 3.4)”. Ex 30.9 adverte contra o incenso estranho. "fogo estranho" talvez sejam palavras tomadas para significar o ato inteiro de queimar o incenso.

As maiores controvérsia neste capítulo estão relacionadas com esta expressão. Rooker [1] informa que entre os rabinos são oferecidas doze interpretações sobre a morte de Nadabe e Abiú. Entre os comentaristas cristãos, ele destaca as seguintes interpretações acerca do “fogo estranho”: penetrar demais no santuário; o fogo foi trazido de fora do tabernáculo; o incenso não estava de acordo com a exclusividade exigida (Ex 30.9); oferecer o incenso no momento errado do dia. 

Alguns têm sugerido que o erro de Nadabe e Abiú foi que eles tomaram fogo de outro lugar que não do altar (esta indicação só será mencionado em Lv 16.12). Outros têm indicado que o serviço devia ser feito individualmente, e não em dupla (pode ser). Outros falam que o serviço devia ser realizado exclusivamente pelo Sumo sacerdote (mas Lucas 1.8-10 mostra Zacarias, pai de João Batista, que não era Sumo sacerdote, realizando o serviço do incenso - ver também 2Cr 26.18). Outros dizem que o erro deles foi entrar no Santo dos Santos, o que só era permitido ao Sumo sacerdote (mas essa restrição só foi indicada depois do incidente com Nadabe e Abiú).

Keil e Delitzsch [2] são de opinião que além do fogo ter sido trazido de fora do altar, o incenso foi oferecido fora de tempo. Ele deveria ter sido oferecido pela manhã e no fim da tarde (Ex 30.7-8). Gostaria de explicar mais esta última posição, pois parece bastante plausível.

Em Ex 30.6-8 o SENHOR diz a Moisés que o incenso devia ser queimado sempre pela manhã e no final da tarde, quando o sacerdote fosse alimentar as lâmpadas que estavam no lugar Santo.

Inicialmente, o altar de incenso ficava junto com a arca da aliança, no lugar Santíssimo (Ex 30.6; 40.5,26; Hb 9.4). Porém depois do incidente com Nadabe e Abiú, o SENHOR proibiu a entrada diária dos sacerdotes no lugar Santíssimo para oferecer incenso (Lv 16.1,2), e determinou que apenas o Sumo sacerdote entrasse no Santo dos Santos com o incenso (Lv 16.12,13), apenas uma vez no ano, no dia da expiação (Lv 16.29-34). 

Então, ao que parece, a coisa errada não foi que Nadabe e Abiú entraram no Santo dos Santos com o incenso, pois isso estava previsto. Mas eles podem ter realizado o serviço fora do horário, ou seja, nem pela manhã nem pelo fim da tarde, mas na hora da refeição.

Se a narrativa do capítulo 10 segue-se logo após ao capítulo 9, como parece, então já haviam acontecido os sacrifícios da manhã (note Lv 9.17). Depois disso, Moisés entrou na tenda com Arão, possivelmente para comer a parte do sacrifício a que os sacerdotes tinham direito (Lv 9.23). E provavelmente ainda era hora da refeição quando Nadabe e Abiú foram mortos, pois Moisés sentiu falta dos sacerdotes mais novos que não estavam no lugar Santo, comendo sua parte do sacrifício (Lv 10.17).

Conclusão 
A opinião de que "fogo estranho" está ligado com o fato da oferta ter sido oferecida fora do horário indicado, parece adequada, embora não deva ser colocada sobre ela um epíteto de verdadeira, nem sobre outras interpretações, o epíteto de falsas. Não é tão simples entender qual foi o pecado de Nadabe e Abiú nesta passagem, não é? Porém, mesmo sendo difícil dar um significado exato para a expressão “fogo estranho” a conclusão é muito clara: Nadabe e Abiú realizaram o serviço a Deus de um modo errado. Eles realizaram o serviço de um modo não ordenado pelo SENHOR, eles não mostraram amor, respeito e sinceridade para com Deus, e por causa disso foram punidos com a morte. 

O descumprimento das normas referente à oferta de incenso não era coisa de somenos importância, pois esta oferta estava ligada com os sacrifícios diários. O incenso, conforme aprendemos de Apocalipse 5.8, tem ligação com as orações dos santos, que por sua vez dependem da obra sacrificial de Cristo, indicada no Antigo Testamento, pelos sacrifícios sangrentos. Por esta razão, Deus foi implacável com Nadabe e Abiú. Além disso, Deus queria deixar claro, desde o começo, Sua indignação com aqueles que se aproximam Dele com um coração irreverente. Deus quer ser adorado sinceramente e de acordo com o que Ele revelou em Sua palavra.

Deus marca a seriedade com que se deve tratar o ofício sagrado, logo no início, para despertar temor no coração dos homens. Podemos ver isso esse Êxodo 20 que mostra que o povo estava com medo de Deus (Ex 20.19-20). O povo não precisava ter medo, pois Deus não vinha a ele como inimigo, mas ainda devia ter medo a fim de não pecar contra Deus. Aquele que despreza a Deus não ficará impune (Ex 19.22).

O rigor do castigo no Édem, o rigor do castigo no Dilúvio, o rigor do castigo aplicado a Nadabe e Abiú, assim como posteriormente o rigor do castigo no caso de Uzá, todos estes casos mostram que Deus é misericordioso, mas Ele deixa prova de sua justiça entre seus filhos para que ninguém pense erradamente que Deus compactua com o pecado daquele que age com desprezo a Ele e a Sua palavra.

Aparecer diante do SENHOR e adorá-lo de modo errado, ofende a Deus e merece o castigo divino. Nadabe e Abiú provaram que isso é verdadeiro. Por isso, amor a Deus e sujeição à Sua palavra são coisas exigidas e necessárias para que se possa oferecer adoração aceitável e agradável a Deus.

NOTAS
[1] Rooker, M. F. (2000). Leviticus (Vol. 3A, p. 156–159). Nashville: Broadman & Holman Publishers.
[2] Keil and Delitzsch. Commentary on the Old Testament. Vol. 1. The Pentateuch. USA: Eerdmans, 1976. p. 351.

Estas anotações fazem parte da exegese de Levítico 10.1-7 que serviu à pregação na Igreja Reformada de Maceió.


Para assistir ao vídeo da pregação, clique Aqui.




#LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil