segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

COMENTÁRIO BÍBLICO ÊXODO 20.1 Quem pronunciou as palavras dos Dez Mandamentos ao povo: Deus ou Moises?

Mosteiro de Santa Catarina, sopé do monte Sinai

por Lucio Manoel

"Então, falou Deus todas estas palavras:"
Para que o leitor possa fazer comparações, os versículos que são citados entre aspas são minha tradução do texto hebraico.

O contexto mais amplo destas palavras é o registro da chegada do povo de Israel ao Sinai, três meses depois dele ter sido libertado pela mão poderosa de Deus, da escravidão do Egito (Ex 19.1). Sugiro a leitura dos capítulos 19 e 20 de Êxodo para familiarizar-se com a questão em discussão.

Deus veio ao encontro do seu povo no pico do monte Sinai (Ex 19.10,11,16-24; 20.18-21). A manifestação de Deus no monte foi marcada por sinais maravilhosos "sons (trovões), tochas (relâmpagos), fumaça (espessa nuvem) e som de trombeta".

Não é cláusula evidente que o povo discernia o que Deus falava, mas sem dúvida é evidente que ele compreendia que o fenômeno evidenciava a presença de Deus que bradava, do monte (Ex 20.18,22).


O final do capítulo 19 se encerra com uma frase inconclusa. “Moisés desceu ao povo e falou para eles” (Ex 19.25). Algumas traduções incluem “isso”, mas o pronome demonstrativo não aparece no texto hebraico. Ele é uma sugestão dos editores de que a referência da frase seja conclusiva às palavras contantes nos versos anteriores (Ex 19.20-24). Estes versos descrevem a fala de Deus a Moisés em termo de “advirta o povo para que não ultrapasse o limite” (v. 21), isto é, não suba ao monte, mas mantenham-se do sopé do monte para trás. Deus falou ainda que “os sacerdotes, que se chegam a Yahweh, devem santificar-se” (v. 22), e que Arão devia subir ao monte com Moisés (v. 24). A sentença significaria, então, que Moisés, quando desceu ao povo, declarou-lhe o que Deus havia lhe dito enquanto estava com Ele, no monte.


Essa abordagem favorece o entendimento que o capítulo seguinte está descontinuado do final do capítulo anterior, e favorece a tese que os Dez Mandamentos tenham sido pronunciados diretamente por Deus.


Do outro lado, discute-se se a ausência de um pronome demonstrativo no final do capítulo 19 “Moisés desceu ao povo e falou para eles” pode indicar um “dois pontos com caráter recitativo” abrindo a declaração que se segue, isto é, os Dez Mandamentos (Ex 20). Diferentemente do ponto de vista indicado anteriormente, aqui se sugere que as palavras dos Dez Mandamentos são pronunciadas ao povo por Moisés.


Não é fácil chegar a uma conclusão, não obstante nada será tirado do valor dos Dez Mandamentos, seja qual for a conclusão. No entanto, para não deixar a discussão em suspense, vale a pena ponderar as opiniões. Antes, porém, deve ser deixado claro que, apesar dos pontos de vistas diferentes, ambas opiniões afirmam que o povo compreendeu que o fenômeno do monte não se tratava meramente de um acontecimento natural com barulho de trovões, fumaça, relâmpago. O povo compreendeu que Deus mesmo estava falando, do monte. O povo testemunhou isso a Moisés (Ex 20.19, veja também Hb 12.19).


Deus mesmo pronunciou os Dez Mandamentos ao povo. Depois da descrição geral do verso 16 (Ex 19.16), o verso 18 (Ex 19.18) exclui os sons (trovão) e o som da trombeta como evidências da presença de Deus - cita apenas fumaça, fogo e tremor. Enquanto que no verso 19 (Ex 19.19) “O som da trombeta continuava e se tornava mais forte” está em paralelismo com “Moisés falava e Deus lhe respondia com o som”, isto é, o som da trombeta. A voz de Deus era compreensiva a Moisés e provavelmente, também ao povo. É provável que o povo discernia o que Deus estava falando por meio do som dos trovões e especialmente da trombeta, mas o fenômeno era tão terrível que o povo não podia suportá-lo e por isso pedem a ajuda de Moisés (Ex 20.19).

Outro destaque importante é a pressuposição de que o povo ouvira os Dez Mandamentos diretamente de Deus. Lê-se em Ex 20.22 que Deus mandou Moisés relembrar o povo que este tinha ouvido a voz do próprio Deus, desde os céus. Os versos seguintes, então, vs. 23,24, são tomados como inclusivas, para evitar repetir todos os Dez Mandamentos, ao mesmo tempo em que enfatiza os primeiros mandamentos que servem de base para todos os outros. É como se Moisés lembrasse o povo com essas palavras, as palavras que o povo tinha ouvido diretamente de Deus.

Em Deuteronômio 5.22-27, Moisés reconta ao povo que estava prestes a entrar em Canaã o que ocorrera quarenta anos antes. Este relato está levemente modificado em relação ao relato de êxodo, mas isso pode ser explicado pelo fato que entre os israelitas haviam muitos que não estavam presente na época do ocorrido, necessitando acrescentar algum detalhes não constantes no primeiro relato. Moisés indica que estava recebendo por escrito nas duas tábuas o que Deus havia falado do monte (leiam especialmente os vs. 22,23).

Quando o escritor Aos Hebreus citou o acontecimento no contexto do culto do Novo Testamento, ele fala não apenas dos sons dos trovões, mas também de palavras (Hb 12.19). Isso sugere que os sons foram palavras compreensivas.


Moisés pronunciou os Dez Mandamentos ao povo. Não obstante o povo ter ouvido a voz de Deus, a afirmação de que o povo compreendia as palavras, é duvidosa. O fato que o povo reconheceu que Deus falara desde o pico do monte Sinai, não reclama evidência de que o povo O ouvira compreensivamente (Ex 20.18,19). Era suficiente ao povo reconhecer que Deus viera ao seu encontro no monte. Isso foi evidenciado nos sinais maravilhosos (Ex 19.16; 20.18) e reconhecido pelo povo (Ex 20.19). Mas a compreensão das palavras seria mediada por Moisés que subira a Deus para ouvi-las e transmiti-las ao povo. Essa tem sido a dinâmica em todo Pentateuco. Moisés ouve de Deus e fala ao povo (Ex 19.3).


Em Êxodo 19.19, a primeira frase “O som da trombeta (ou buzina, dependendo da tradução) ia aumentando" está em paralelismo com a segunda frase “Moisés falava e Deus respondia no som (algumas traduções complementam "da trombeta")”. O texto hebraico fala apenas de “som” ק֣וֹל, mas o complemento "da trombeta" é justificado pelo paralelismo do verso e também pelo uso anterior de Ex 19.16. O texto indica que Moisés conversava com Deus, compreensivamente. Moisés fazia perguntas, buscava esclarecimentos, recebia ordenanças (Ex 19.20-24). No entanto, a narrativa, neste ponto, acontece no alto do monte. Se a voz de Deus era compreensiva, o era apenas para Moisés, enquanto o povo aguardava que Moisés descesse e lhe relatasse as palavras de Deus (Ex 19.25).

Em Deuteronômio 5.5 Moisés relembra ao povo que estava às portas de Canaã, que quarenta anos antes, quando Deus aparecera aos israelitas no cume do monte Sinai, Yahweh falava, mas era ele, Moisés, quem transmitia as palavras do Senhor ao povo (Dt 5.27). Possivelmente o povo não compreendia as palavras de Deus por causa do terror da manifestação da sua glória, necessitando de um Mediador que pudesse fazer a vez de Deus diante dele.

Esta segunda opinião se ajusta melhor ao contexto geral da revelação de Deus ao seu povo. Deus falava com Moisés face a face (Dt 34.10) e Moisés, como um Mediador que servia de tipo para Cristo, por meio de quem Deus revelaria a plenitude da sua vontade (Hb 1.1-4), falava ao povo (Ex 19.25; 20.19). Isso não significa que o povo estava excluído do fenômeno inteiro. Moisés chega a dizer que todo o povo viu Deus face a face (Dt 5.4). De fato, a manifestação geralmente era visível ao povo (Ex 13.21; 19.16; 20.18; 1Re 8.10), não, porém, a comunicação verbal, que ficava com seus porta-vozes, os profetas.



Estas anotações fazem parte da exegese de Êxodo 20.18-21 que serviu à pregação na Igreja Reformada de Maceió.

Para assistir ao vídeo pregação, clique Aqui.




#LucioManoelVDM

Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

SERMÕES REFORMADOS ESCRITOS (para uso nas devocionais em família, estudos e cultos)


por Lucio Manoel

#PregaçãoReformada

Você sabia que temos um site em Português que armazena sermões reformados que podem ser bem utilizados em devocionais, estudos bíblicos e até mesmo em cultos públicos?

O site Pregação Reformada reúne sermões de pastores reformados brasileiros e estrangeiros que já tenham servido como missionário no Brasil. Estes sermões estão distribuídos nas áreas de Antigo Testamento e Novo Testamento, além de sermões expondo doutrinas bíblicas conforme são confessadas no Catecismo de Heidelberg (confissão do Século XVI que faz parte das Três Formas de Unidades das Igrejas Reformadas).

Os cristãos brasileiros precisam fortalecer a prática dos devocionais semanais em família. Desde os tempos antigos os devocionais têm servido ao fortalecimento das famílias cristãs e ao crescimento espiritual de seus integrantes. Também tem sido comum a adoção de livros ou leituras de sermões nas devocionais. É neste ponto que o site Pregação Reformada pode ser muito útil, pois oferece uma gama de sermões bastante confiáveis quanto a exposição da Palavra de Deus.

Se você dirige pequenos ou mesmo grande grupos de estudos bíblicos, saiba que dá bastante resultado ler um sermão e abrir discussão acerca da sua mensagem principal e sobre os temas menores contemplados no sermão. Para suprir essa demanda, o site Pregação Reformada oferece um número grande de sermões.

Por fim, o uso de sermão escrito no culto público é uma prática bem antiga, remontando ao IV Século da era cristã. Na ausência do Ministro, uma pessoa encarregada pela congregação assume a liturgia do culto público, incluindo a leitura de um sermão escrito por um Ministro. Essa prática ainda pode ser vista em algumas igrejas espalhadas pelo mundo. No Brasil, as Igrejas Reformadas do Brasil conservam essa prática.

Já sabe. Para seus devocionais, para estudos bíblicos e até mesmo para auxiliar no culto público, a utilização de sermão escrito é, não apenas uma vantagem, mas até mesmo uma forma segura de preservar a pregação fiel da Palavra de Deus. Aproveite-se deste banquete da Palavra de Deus.

http://pregacao.reformada.org/






#LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

COMENTÁRIO BÍBLICO DEUTERONÔMIO 34.1 Qual o significado de Moisés ter subido ao monte?


por Lucio Manoel

"Moisés subiu desde a planície de Moabe para o monte Nebo, para o pico do Pisga que [fica] de frente para Jericó; Yaweh fez que ele visse toda a terra de Gileade até Dã" Tradução própria a partir do texto hebraico, para que o leitor possa fazer comparações com outras traduções em Português.

“Moisés subiu” Assim começa o último capítulo do derradeiro livro da Lei, do Pentateuco. Moisés que tem seu primeiro encontro com Deus em um monte, o Sinai (Ex 3), tem agora o seu último contato com Deus, também em um monte, o monte Nebo (Dt 34). A expressão “Moisés subiu” aparece também em Êxodo 19, Êxodo 24 e Números 27, sendo este último o registro antecipado da subida e morte de Moisés no monte Nebo ou Abarim (Dt 33.48-5).

As regiões altas, as alturas, os céus, já em Gênesis 22.11,15, são identificados como um lugar onde Deus está. Em Gn 14.19 Deus é chamado de Altíssimo e possuidor dos céus. Jacó, em sua visão da escada, chama o lugar de casa de Deus e o liga com a porta dos céus (Gn 28.17). Mas é nos Salmos onde se encontram as citações mais explícitas sobre os céus como morada de Deus (Sl 2.4; 14.2; 18.13; 57.5,11; 80.14; 102.19; 108.5; 115.3,16; 123.1).

As alturas são identificadas com Deus e a terra com os homens. Assim, a dinâmica bíblica entre Deus e o seu povo se revela no encontro do céu com a terra. Era assim no Éden (Gn 3.8), quando Deus vinha ao encontro do homem na viração do dia. Mas com a queda, o homem perdeu o privilégio do contato especial com Deus, embora ele não tenha perdido a aspiração por este contato. O homem continua buscando a Deus, apesar de, na maioria das vezes, fazer isso de maneira errada. Frequentemente, a Bíblia associa os sacrifícios nos altos com a idolatria (1Re 22.14; 2Re 14.4; 2Cr 28.4; 33.14), enquanto que em outras vezes estes sacrifícios se destinavam a Yahweh (2Re 12.3).

Da mesma raiz do verbo עלה 'alah “subiu” (como aparece em Dt 34.1) deriva muitas outras palavras hebraicas importantes: holocausto, altíssimo, subida (Salmos de subida). Estas palavras evocam significado especial de aproximação a Deus, de subir em direção a Deus, e não meramente indicam distanciamento de Deus. Deus é Altíssimo, acima de tudo - aliás, a palavra Altíssimo no Texto Hebraico da BHS (Bíblia Hebraica Stuttgartensia) apenas se associa com Deus e com nenhum ser humano (esta palavra as vezes é usada para descrever a superelevação de uma coisa em relação a outra). O homem aspira chegar até Deus.

Teologicamente, a expressão “Moisés subiu” é significativa. Nas passagens em que estão indicadas acima, nas quais Moisés sobe ao monte, elas indicam um subir a Deus. Subir ao monte equivalia subir a Deus, não porque o monte tivesse qualquer coisa especial que fizesse dele um lugar especial, exceto pelo fato de Deus utilizá-lo como local de manifestação de sua presença (Sl 123.13). É por esta razão, e somente por essa, que certos montes, como Sião, são chamados de monte santo (Sl 2.6; 3.4; 15.1; 43.3; 48.1; 87.1; 99.9; Is 11.9; Zc 8.3; Ez 28.14; Jl 2.1; 3.17; Dn 11.45; Ob 1.16).

Este ato de subir ao monte (ao templo) imprimiu no coração do povo de Deus no Antigo Testamento uma imagem poderosa do encontro entre Deus e o seu povo. A imagem do povo de Deus subindo as ladeiras da Judeia rumo a Jerusalém e a imagem de Deus descendo ao templo para encontrar-se com seu povo (Sl 122), são imagens vigorosíssimas do encontro pactual entre Deus e o seu povo. O pleno cumprimento deste encontro pactual começou na encarnação do Filho de Deus (Ele tabernaculou e habitou entre nós - Jo 1.1,14) e terminará na nova Jerusalém (Ap. 21).

Este significado pactual, refletido na subida do homem a Deus e na descida de Deus ao homem, que converge no monte, assinala muito mais um privilégio para Moisés do que um motivo de tristeza em decorrência do fato que ele não entraria na terra prometida. Especialmente porque Moisés descansou no SENHOR com a imagem da terra prometida em sua mente (Dt 34.2-4).

O monte assinala o grande evento que anulará a separação que o pecado criou entre céus e terra, entre Deus e o homem. A tentativa do homem de subir até Deus tem seu limite no monte. Eis o ponto mais alto onde o homem podia chegar. Mas também foi no monte, no monte chamado Calvário, onde Cristo rompeu os limites da separação entre céus e terra, entre Deus e homem. Cristo na cruz, entre o céu e a terra, entre Deus e o homem. Ali, pendurado, suspenso da terra, arrancou dos homens o pecado que o afastava de Deus. Ali, mais perto de Deus do que qualquer homem possa chegar, Cristo aproxima Deus aos homens.



Estas anotações fazem parte da exegese de Deuteronômio 34.1-4 que serviu à pregação no culto de ação de graças do dia 31/12/2016 na Igreja Reformada de Maceió.

Para assistir ao vídeo da pregação, clique Aqui.




#LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil.