quarta-feira, 21 de junho de 2017

DOUGLAS WILSON, TEÓLOGO E ESCRITOR REFORMADO, ALIADO DA VISÃO FEDERAL



por Lucio Manoel

Douglas Wilson é pastor nos Estados Unidos, ministro da Christ Church, na cidade de Moscow, estado do Idaho. Participou da fundação da Logos School, é ativo em várias organizações destinadas a promover a cosmovisão cristã e tem participado de debates apologéticos.

É autor de vários livros. No Brasil já estão publicados alguns na área de família, como Futuros homens, Reformando casamento e o mais recente, Fidelidade, publicado em 2017. Estes livros foram publicados pela editora CLIRE. Além destes, O ateu em delírio, Cinco cidades que dominam o mundo, Persuasões, O cristianismo é bom para o mundo?, Educação clássica e educação familiar (participação) e Eu sei em quem tenho crido (participação).

Wilson é reconhecido como cristão conservador, mas não deixou de envolver-se na polêmica sobre Visão Federal. Recomendo o artigo escrito por David Engelsma, intitulado Visão Federal. Esta abordagem transita no campo reformado, não obstante ser rejeitada pela maioria das igrejas reformadas conservadores e teólogos reformados, como não confessional. 

Entre os pontos mais importantes defendidos pelos aderentes da Visão Federal, podem ser destacados: justificação pelas obras, pacto da graça estendido aos filhos de todos os pais crentes, a não garantia de salvação dos eleitos, garantia de regeneração aos batizados, a possibilidade de queda daqueles que foram unidos a Cristo. Talvez a abordagem mais recente sobre estes temas está no recente livro de Alan Rennê, publicado pela editora Os Puritanos, A Visão Federal e os Padrões de Westminster

Apesar dos artigos que estão inundando a rede mundial de computadores, os livros publicados pelos adeptos da Visão Federal ainda são poucos.

Nos Estados Unidos várias igrejas tiveram de se posicionar sobre o assunto. No Brasil, os lampejos da Visão Federal já brilham em faculdades cristãs.

Fiquem de olhos bem abertos. 






#LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

sexta-feira, 16 de junho de 2017

ELIAS E ELISEU, JOÃO E JESUS


É notável que o próprio Antigo Testamento termine relembrando Elias e proclamando a sua volta (Ml 4.56). Os escritores do Novo Testamento também fizeram um extenso uso das narrativas de Elias e Eliseu. Mateus fornece um bom exemplo de como os autores neotestamentários desenvolveram esses materiais.

  O primeiro evangelista traça paralelos literários entre as vidas de Elias e Eliseu e as de João Batista e Jesus. Ele apresenta João como o cumprimento da profecia de Malaquias de que Elias voltaria (Ml 4.5) e caracteriza Jesus como o novo Eliseu. É provável que os judeus do tempo de Jesus esperassem que Elias ressurgisse literal e fisicamente da sepultura e, portanto, quando João Batista foi questionado se era Elias, ele respondeu: “não sou” (Jo 1.21). Ao menos no início de seu ministério, João Batista parece não estar consciente de que cumpria o papel do esperado Elias. Por outro lado, Jesus descreveu João como “o Elias que estava para vir” (Mt   11.14; 17.12), e Mateus segue esse caminho para provar como aconteceu.

1.Elias era conhecido pelo modo peculiar de se vestir. Quando Acazias enviou mensageiros para consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom, os emissários se depararam no caminho com uma figura misteriosa que os mandou de volta ao rei. Quando o rei lhes perguntou: “Qual era a aparência do homem que vos veio ao encontro?”, os mensageiros responderam: “Era homem vestidos de pelos, com os lombos cingidos de um cinto de couro” (2Rs 1.7,8). A partir dessa mínima descrição, o rei soube imediatamente que seus convidados haviam se encontrado com Elias. Quando João Batista começou sua pregação, Mateus o apresentou dizendo: “Usava João vestes de pelos de camelo e cinto de couro” (Mt 3.4). Essa singularidade indumentária evocava a memória de Elias.

2.Ao longo de suas vidas, Elias e João Batista enfrentaram um poder político hostil. Em particular, o principal antagonista de ambos foi uma mulher que atentou contra suas vidas. Para Elias, fora Jezabel (1Rs 19.2,10,14), enquanto para João, foi Herodias (Mt 14.3-12).

3.Elias e João Batista ungiram seus sucessores no rio Jordão. Eliseu acompanhou Elias ao Jordão e pediu-lhe que uma porção dobrada do espírito de Elias também repousasse sobre si (2Rs 2. 9-14). Quando João batizou Jesus no Jordão, ele viu os céus se abrindo e o Espírito de Deus descendo sobre o filho de Deus (Mt 3.13-17). Elias foi o precursor de Eliseu, da mesma forma que João Batista o foi para Jesus. Lucas também trabalha esse tema: quando o nascimento de João Batista foi predito a seu pai, Zacarias, o anjo Gabriel disse que João viria “adiante do Senhor no espírito e poder de Elias” e que João cumpriria a missão atribuída a Elias por Malaquias: “Para converter o coração dos pais aos filhos” (Lc 1.17; Ml 4.6).

4.Talvez não exista nem uma outra parte do Antigo Testamento tão farta em milagres quanto a narrativa de Eliseu . Após conceder a porção dobrada de espírito perdida pelo profeta, Deus demonstrou sua aprovação a Eliseu e testificou a mensagem por ele proclamada através dos milagres que acompanharam o seu ministério. Do mesmo modo se deu a multiplicação de milagres quando Deus testificou o ministério do seu próprio filho (Hb 2.3,4). Supunha-se que o aparecimento de Elias inauguraria “aquele grande e terrível dia do Senhor “,   o dia em que Deus julgaria o mal, enquanto protegeria e preservaria seu povo. Durante sua prisão, João Batista ouviu que Jesus estava ensinando e pregando na Galiléia. Por isso, João enviou mensageiros para que perguntassem a Jesus: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?”. Mateus relata o que Jesus disse aos discípulos de João: “Ide e anunciai a João o que estás ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11.4,5). Essa é em grande parte a lista dos milagres de Eliseu: ele restabeleceu visão a um cego (2Rs 6.18-20), curou a lepra (2Rs 5), trouxe um morto a vida (4.32-37; 8.4-5; 13.21) e trouxe boas – novas ao destituído (1-7; 7.1-2; 8.6.). Tal lista de milagres de Eliseu se confunde com a do servo prometido do Senhor (Is 61.1-3). Jesus, com efeito, estava revelando  a João: ”O sucessor de Elias chegou. Eu sou aquele que você está procurando”.           
Retirado do livro Introdução ao Antigo Testamento. Raymond B. Dillard e Tremper Longman III; tradução Sueli da Silva Saraiva. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 160-161


sábado, 6 de maio de 2017

O CONSERVADORISMO DE LUTERO, CURIOSAMENTE INFLAMA O REVOLUCIONISMOEVANGÉLICO DE SEUS DIAS

  
por Lucio Manoel

A Reforma não aconteceu do nada. A atitude de Lutero, fixando as 95 Teses na porta da capela do castelo de Wittenberg, também não. A Europa estava passando por sérias transformações sociais, mas também políticas, havia muito tempo. A religião andava nestas esteiras, não sem elas ou fora delas [1].

A Europa feudal criara um sentimento de opressão dos príncipes sobre os operários. Os grandes centros estavam mais propensos às mudanças, por causa de seus constantes contatos com as novidades que chegavam de toda parte, mas as zonas rurais não estiveram à parte do fenômeno de renovação da fé evangélica que o monge agostiniano havia exacerbado.

A religião protestante oferecia um ingrediente novo aos anseios por libertação, da opressão sentida pelas pessoas comuns em relação ao domínio dos príncipes: a descoberta da fé num Deus gracioso, que renovava a esperança de uma vida mais justa, e de liberdade.

Dentro das igrejas, as aspirações por mudanças já eram sentidas séculos antes de Lutero, mas agrava-se imensamente às portas do século XVI. As mudanças expectadas são essencialmente religiosas. O Reformador alemão busca essas mudanças. Esse renovado fervor por mudanças logo se espalha pela Alemanha. De dentro da igreja, para as famílias, para as ruas. E logo se perceberá que esse fervor religioso e aspiração por mudanças na religião traz consigo uma espírito de transformação  social.  

Some-se às tensões crescentes no meio dos operários camponeses as tensões entre as lideranças dos príncipes com a igreja e com o imperador da Alemanha. Não fica de fora o conflito advindo da classe mercantilista, que ganhava força com o aumento do poder econômico da burguesia. A Alemanha está prestes a experimentar os resultados de tantas tensões combinadas.

A Reforma, que inicialmente se mantinha essencialmente como movimento religioso, logo avançaria para influenciar os campos político e social, sob risco de estagnação. Estagnação essa que acabou acontecendo na Alemanha posterior, mas não no restante da Europa.

Ainda na Alemanha, as populações que se sentiam oprimidas pelos príncipes são despertadas pela reforma religiosa em desenvolvimento por meio de Lutero. O Reformador enfatizava a nova vida como matéria de fé. Essa nova vida estava associada à busca de uma terra melhor, onde a justiça fosse alcançada por todos.  Esse despertamento ganhou a Alemanha luterana, acirrando as tensões entre príncipes e populações operárias, seja na zona rural, seja nos centros urbanos. 

Porém, enquanto Lutero estava mais interessado na reforma religiosa, ambos lados das crescentes tensões, principados e operariados, serviam-se da reforma religiosa de Lutero para assumir posições opostas nos crescentes conflitos. 

Lutero manteve-se em boa medida fora dos conflitos, preocupado em levar a religião protestante ao próximo nível de purificação. O operariado, servindo-se da autonomia da consciência em questão de adoração, em relação à hierarquia romana, presente nos discursos de Lutero, desenvolviam um espírito revolucionário. Do outro lado, os príncipes, servindo-se da dicotomia promovida por Lutero entre a igreja e o governo civil, pois ele defendia que em matéria de solução dos conflitos sociais e políticos, era direito inalienavel dos príncipes, como ministros de Deus, promovê-lo, esmagava os motins que surgiam em todo canto. De fato, Lutero defendia firmemente que esse direito dos príncipes em assuntos civis fora ortogado diretamente por Deus, portanto a resistência aos principados não devia ser tolerada. Com esse apoio, os príncipes alemães usaram suas prerrogativas de governo para conter violentamente os atos revolucionários considerados subversivos à boa ordem que Deus deseja para este mundo. 

Em vista da posição de Lutero de, por um lado, não apoiar as aspirações do operariado por uma condição melhor de vida, e, por outro lado, de ficar ao lado dos príncipes na solução dos conflitos, rendeu ao Reformador a fama de conservador. Por outro ângulo, porém, ainda que sem um plano orquestrado, Lutero ofereceu um ingrediente poderosos para uma revolução operária, começando na Alemanha, mas que logo se estenderia pelo restante da Europa: a esperança em um mundo mais justo. Para os operários Lutero serviu como um profeta. 

Como diz Biéler, “Por sua essência, a Reforma evangélica é uma força de renovação social autônoma, nem conservadora nem revolucionária” (p. 65). No entanto, a posição de Lutero em relação aos príncipes, como sendo estes os responsáveis para por fim aos conflitos sociais rurais ou urbanos, colocou o Reformador no fronte conservadora. 

Não é sem justificativa que Lutero perde prestígio tanto entre os revolucionários do operariado alemão como da hierarquia romana. Os primeiros por não apoiar o que pensavam ser uma consequências de suas próprias doutrinas e o segundo por sua traição ao conservadorismo hierárquico, trocando-o pelo dos príncipes alemãs. Neste caso, porém, a renúncia de Lutero se dá ao conservadorismo das doutrinas romanistas, mantendo o conservadorismo da estrutura social, conforme perdurou nos principados alemãs.

[1] Para maior entendimento sobre este particular, consultar a obra de André Biéler “O pensamento econômico e social de Calvino; tradução de Valdyr Carvalho Luz. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 40-71”. 






LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

quinta-feira, 23 de março de 2017

CALVINO, GENEBRA E AS CAMADAS DO SAGRADO - Dr. Luiz Fabiano de Freitas


Calvino, Genebra e as camadas do sagrado

Dr. Luiz Fabiano Tavares
A cidade Suíça de Genebra representou importantíssimo papel na história da Reforma. Em 1526 os cidadãos de Genebra romperam com a casa aristocrática de Saboia, que dominava a região, fundando uma república. Já nesse tempo ideias reformadas circulavam na cidade e em 1535 o conselho governante rompeu laços com a Igreja Católica, adotando formalmente a Reforma no ano seguinte. Nas décadas subsequentes Genebra recebeu grande quantidade de refugiados que fugiam de perseguições religiosas, especialmente vindos da França. O mais famoso desses refugiados, sem qualquer dúvida, é João Calvino (1509-1564), que no ano de 1541 se instalou definitivamente na cidade, tornando-se nos anos posteriores um dos mais destacados pensadores reformados.
O viajante que visite Genebra poderá encontrar inúmeros testemunhos de sua história e da importância da Reforma na formação da cidade, inclusive no belíssimo Museu Internacional da Reforma. A pequena distância também poderá visitar a Catedral de São Pedro, onde Calvino pronunciou a maioria de seus sermões. Curiosamente, a atual fachada do prédio não data da época do reformador, tendo sido reconstruída no século XVIII, seguindo projeto do arquiteto italiano Benedetto Alfieri, em estilo neoclássico, então em voga, tomando uma forma que imitava os antigos pórticos gregos e romanos.
[Imagem A – Legenda: Antiga fachada da igreja em gravura realizada em 1730 por Robert Gardelle (esquerda) e a atual fachada, retratada em 1809 por Christian Gottlieb Geissler (Acervo da Biblioteca de Genebra).]
Adentrando o edifício, todavia, o visitante encontra a antiga nave, cuja decoração simples e elegante deriva dos esforços dos primeiros reformadores, cujo programa estético e eclesiástico determinava a eliminação de elementos decorativos considerados supérfluos ou excessivamente luxuosos. É interessante sentar ali e imaginar como era o culto à época da Reforma e os personagens que ali circulavam naquele período, como o próprio Calvino, mas também pessoas direta ou indiretamente envolvidas com a experiência da França Antártica (breve experiência de colonização francesa na Baía de Guanabara), como Jean Crespin, Pierre Richer ou Jean de Léry.
[Imagem 1 – Legenda: No interior da igreja é possível notar a estrutura arquitetônica gótica aliada à decoração simples elaborada pela Reforma. Ao fundo, o púlpito onde o próprio Calvino pronunciava seus sermões. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
No entanto, a catedral guarda outras surpresas... Seu subsolo é um riquíssimo sítio arqueológico, escavado desde 1977 e hoje aberto à visitação. Na verdade, a área já era ocupada há dois mil anos, antes mesmo da chegada dos romanos à região. Não à toa, ali se situava o túmulo de um chefe alobrógio - da tribo celta dos Alobrógios. É difícil dizer se era mesmo um chefe – é sempre saudável desconfiar da precisão de identificações arqueológicas. Em todo caso, ali jaz um guerreiro celta do século I a.C.
[Imagem 2 – Legenda: O bem conservado túmulo de um guerreiro alobrógio lembra os antigos habitantes da região. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
A certa distância dali se encontra um pequeno tesouro monetário enterrado no mesmo século. Note-se que com o tempo e a ação química da umidade as moedas se fundiram num bloco maciço. É interessante observar que entre algumas etnias celtas esses enterramentos de moedas (e outros objetos) correspondiam a uma forma bastante comum de culto a divindades ctônicas (subterrâneas). Por sinal, isso é particularmente verdadeiro em relação às tribos helvéticas, como mostra o famoso exemplo do lago de La Tène, onde eram atiradas oferendas. Tanto o túmulo quanto as oferendas monetárias mostram que aquele era um local sagrado, onde os mundos dos vivos, dos mortos e das divindades se encontravam.
[Imagem 3 – Legenda: O enterramento de moedas testemunha as práticas religiosas dos antigos alobrógios. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
O sítio arqueológico também preserva vestígios de que logo após a conquista romana o local foi transformado num templo. Esses vestígios são compostos principalmente por elementos arquitetônicos como capitéis de coluna ou alguns arcos. Curiosamente, essa camada enterrada corresponde à atual fachada de inspiração greco-romana, lembrando que a história e os estilos artísticos muitas vezes compõem complexas e inesperadas espirais. Os construtores da época romana dificilmente poderiam imaginar que seu modelo arquitetônico seria reutilizado no mesmo local, tantos séculos depois...
Por volta do século IV d.C. o local começou a ser utilizado como templo cristão, sofrendo sucessivas ampliações e alterações até o século XII. Por exemplo, podemos ver um batistério muito bem conservado, alimentado por um engenhoso sistema hidráulico. A forma e as dimensões do batistério remetem à propagação do cristianismo na Europa durante a Alta Idade Média, em que muitos se tornavam cristãos já adultos, tendo sido educados em cultos pagãos, marcando também uma outra fase do Catolicismo, em que era menos comum o atual costume de batizar crianças.
[Imagem 4 – Legenda: É possível perceber na direção superior direita o ponto terminal do encanamento que alimentava o batistério. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
Também é possível ver vestígios do antigo coro da Igreja, com sua simpática decoração geométrica esculpida na pedra, característica das edificações da Alta Idade Média, lembrando as antigas e profundas ligações entre música e espiritualidade, comuns a diversas denominações cristãs. Séculos mais tarde Calvino enalteceria a pureza e simplicidade do louvor através do canto a capella.
[Imagem 5 – Legenda: Esses entalhes rústicos e despojados talvez combinassem com a elegante simplicidade mais tarde almejada pelos homens da Reforma. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
Nesse mesmo período também foi instalado um claustro ao lado da igreja, lembrando a importância do monasticismo na história do Cristianismo durante a Idade Média. As celas dos monges era aquecidas por um engenhoso sistema de calefação radial, que nos meses mais frios distribuía ar quente através de tubulações sob o piso.
[Imagem 6 – Legenda: O sistema de calefação ajudava a enfrentar o rigoroso inverno dos Alpes. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
No fim da Idade Média o bispo local ainda contava com acomodações luxuosas do outro lado da Igreja, incluindo uma sala de recepção com sofisticada pavimentação decorativa, parcialmente conservada.
[Imagem 7 – Legenda: Os elaborados mosaicos contrastam com a simplicidade do atual piso da igreja, metros acima. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
No século XV o espaço foi amplamente reformado, e a catedral ganhou as formas góticas que ainda hoje ostenta em seu interior. Menos de 100 anos passados, com a adesão de Genebra à Reforma, a Igreja se tornou local de culto protestante, como já vimos.
É impressionante notar que ao longo de dois milênios e suas sucessivas transformações religiosas esse mesmo local permaneceu sempre sendo usado para funções sagradas. Coincidência?
Provavelmente não, a começar pela primeira mutação, logo após a conquista romana. Como se sabe, foi muito comum que antigos santuários celtas tenham sido "romanizados" pelas próprias populações nativas, originando inclusive estilos artísticos e arquitetônicos híbridos. Nesse sentido, era uma transformação muito mais arquitetônica que religiosa, embora as próprias divindades locais fossem muitas vezes assimiladas a divindades romanas equivalentes. É provável que os próprios Alobrógios tenham participado ativamente dessas transformações, em seu processo de integração ao mundo romano.
Por outro lado, a posterior apropriação católica daquele espaço teria finalidade muito distinta. A ocupação e cristianização de antigos santuários foi uma estratégia de catequese e conversão intensamente empregada pela Igreja Católica na época do Baixo Império e no início da Idade Média - que, por sinal, foi muito reutilizada durante a retomada da Península Ibérica aos muçulmanos e mesmo durante a conquista da América, transformando mesquitas ou templos ameríndios em locais de culto católico.  Nesse sentido, tratava-se de deliberada ação de proselitismo religioso, relacionado ao processo de expansão do Cristianismo do Mediterrâneo ao norte da Europa.
De certa forma, o mesmo pode ser dito da apropriação reformada no século XVI, quando a catedral católica sofreu drástica simplificação decorativa, como parte do programa protestante, especialmente através da eliminação das imagens. Desta feita, era um movimento de transformação dentro da própria tradição cristã que imprimia sua marca ao espaço e ao edifício.


Enfim, a Catedral de São Pedro em Genebra condensa não apenas dois mil anos de espiritualidade ocidental, mas ainda a densa trama de relações sociais, políticas e econômicas que engendraram todas essas transformações ao longo dos séculos. Suas paredes e seu solo guardam vivos e impressionantes registros da busca do ser humano pelo divino ao longo das eras, passando por diversas tradições religiosas e espirituais; as escavações arqueológicas no local mostram que os reformadores do século XVI caminhavam literalmente sobre séculos dessa longa aventura humana, constituindo mais um elo de uma longa corrente que mergulha no passado distante...








Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense; autor dos livros Entre Genebra e a Guanabara – A discussão política huguenote sobre a França Antártica (Topbooks, 2011) e Da Guanabara ao Sena – Relatos e cartas sobre a França Antártica nas Guerras de Religião (EdUFF, 2011).

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

IMAGENS SAGRADAS PODEM SERVIR COMO LIVRO PARA IGNORANTES?



por Vivius Silva Pimentel

As discussões dos últimos dias sobre a suposta validade de "imagens pedagógicas" de Cristo me levaram a reler o capítulo 11 do primeiro livro das Institutas. Trata-se dum capítulo em que se apresenta com especial clareza não apenas a sabedoria de Calvino, mas também a sua (nem sempre tão) fina ironia.

A certa altura, ao discutir o argumento de que imagens são "livros para indoutos", Calvino sai com esta tirada cavalar: "Há uma simples razão pela qual aqueles que têm igrejas a seu encargo entregam o ofício do ensino aos ídolos: é porque eles próprios são burros".

A grosseria talvez seja desnecessária, mas o argumento que a precede é bíblico e valioso: tudo o que as imagens nos ensinam a respeito de Deus é necessariamente "fútil e falso". O madeiro é "ensino de vaidade", diz Jeremias (10.8), e a imagem de fundição apenas "ensina mentira", diz Habacuque (2.18). Fazer representações visíveis de Deus é absurdo não apenas porque "imagens corpóreas são indignas da majestade divina", mas também porque elas "diminuem o temor reverente e encorajam o erro".

Calvino também refuta o argumento (tão repetido nas últimas discussões) de que as imagens podem ser usadas apenas para "representar Deus" e não para adoração. Na verdade, ele toma o argumento de Agostinho, que, ao comentar o Salmo 113, condena também esse tipo "mais refinado" de religiosidade como sendo idólatra.

Como se estivesse lendo as discussões aqui no Facebook, Calvino também rebate quem o acusava de ser supersticioso ao ponto de rejeitar todo tipo de imagens, reconhecendo que pinturas e esculturas são "dons de Deus" para serem usados de modo digno e puro. Mas ele insiste: "pensamos ser ilícito dar uma forma visível a Deus, porque o próprio Deus o proibiu e porque isso não pode ser feito sem, em alguma medida, manchar a sua glória". Essa proibição divina se acha não apenas no Antigo Testamento, mas também no Novo, e Calvino faz uma interessante inferência de 1João 5.21, no qual o apóstolo nos exorta a nos acautelarmos não apenas do culto aos ídolos, mas dos ídolos mesmos.

É claro que ninguém é obrigado a concordar com as conclusões de Calvino, ao menos pelo simples fato de virem da boca do reformador. Mas é um tanto curioso que os argumentos sejam os mesmos rebatidos há quase cinco séculos e, apesar disso, não tenhamos visto muita interação com eles. O que me faz concluir algo sobre minha própria postura estes dias: se os que discordam não levam a sério o que escreveram os maiores defensores dessa posição, por que levariam a sério um verme como eu?

Como diria o Pernalonga... Isso é tudo, pessoal!



Presbítero da Igreja Presbiteriana da Aliança em Recife/PE. Bacharel e Mestrando em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Comentarista do Site Política Reformada.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

COMENTÁRIO BÍBLICO JÓ 1.4-5 Quais foram os pecados dos filhos de Jó?



por Lucio Manoel

Jó 1.4-5
É recomendável a leitura dos dois primeiros capítulos para melhor compreensão do contexto.

Os versículos que aparecem entre aspas são minha tradução a partir do Texto Hebraico, para servir aos leitores na comparação com outras versões em Português.
“E iam seus filhos e faziam festa (banquete, almoço), cada casa em seu dia;  e enviaram e chamaram as suas três irmãs para comer e beber com eles. Aconteceu pois o rodízio dos dias da festa; e enviou Jó e os santificou, e se levantou de manhã bem cedo e levantou (ofereceu) holocaustos do número de todos eles, pois disse Jó: talvez os meus filhos tenham pecado e amaldiçoado (blasfemado) a Deus em seu coração.” 

No mundo antigo, como em Israel posteriormente, haviam muitas festas. Festas que duravam dias. O texto não identifica uma festa específica. Não há nenhum significado especial na palavra הַמִּשְׁתֶּ֜ה, pois pode indicar uma festa ou uma simples refeição (Gn 19.3). Pode se tratar de uma festa típica, como colheita, ou uma festa familiar. Festa de colheita não era exclusiva do povo de Israel. 

 Esta festa, como outras, demorou vários dias. Estes versículos parecem sugerir que cada dia da festa era realizada na casa de um dos filhos. Se considerado que Jó teve sete filhos homens, a festa deve ter durado sete dias. As três irmãs foram chamadas a se juntar aos irmão, mas elas não foram contadas no rodízio na festa. Talvez porque ainda estivessem na casa dos pais ou porque a contagem ficasse apenas por conta dos filhos homens, como era costume.

Não está claro se os filhos de Jó eram casados. Neste caso, o número de participantes das reuniões festivas podia ser maior. Mas se não eram casados, pelo menos, já eram adultos e tinham vidas independentes. Moravam em suas próprias casas. Eram responsáveis por si mesmos. Jó não estava com seus filhos o tempo todo. Nada é dito do fato que Jó não participava das festas. Talvez ele se achasse fora da idade para participar das festas dos jovens. 

Os pais e oficiais não devem impedir os encontros festivos dos jovens da igreja. O que não é recomendável de jeito nenhum é festa com os de fora (os filhos de teimavam em família). Se os filhos dos crentes e demais jovens da igreja temem a Deus, o cuidado dos pais e dos oficiais será o meio para Deus preserva-los do mal.

Apesar da independência dos filhos ao oitavo dia Jó se apressou a santificá-los e a interceder por eles. Nos tempos mais remotos, especialmente antes da instituição do sacerdócio levítico em Israel, cabia ao pai de família, as funções sacerdotais que mais tarde seriam atribuídas a Arão e a seus filhos. Pode ser levantado a questão que Jó suspeitava que as festas serviam à bebedice (em função do uso da palavra festa que deriva do verbo beber) ou até coisa pior. Sem negar essa hipótese, nada disso está afirmado no texto. O que está em destaque é o cuidado de um pai que sabe da exposição ao pecado a que os filhos estão submetidos.

Seus filhos e filhas estavam festejando, brincando, comendo e bebendo. Essa combinação podia oferecer ocasião para o pecado. Os ânimos podiam ficar alterados. Podiam acontecer excessos nas brincadeiras. Alguns podiam se sentir mais à vontade para tirar brincadeiras ofensivas. Outros podiam assumir atitudes libertinas. Ainda outros podiam  aproveitar a situação para desabafar suas mágoas. As possibilidades de alguma coisa dar errado eram tantas que Jó pensou “Talvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração”. 

“Talvez” é uma palavra importante, porque Jó não está remediando uma situação pecaminosa criada por seus filhos, mas ele está preocupado com a honra de Deus e com a consequência de possíveis pecados para seus filhos.

Podia até não ter acontecido nada de mais grave nas festas. Mas as vezes alguém que se comporta de maneira adequada, ainda pode carregar grandes males no coração. Jó sabia disso. Por essa razão, ele sempre se colocava entre Deus e seus filhos: "Dessa maneira fazia Jó todos os dias.” O cuidado de Jó com os filhos era recorrente. 

Jó queria, de um lado, proteger a santidade de Deus dos possíveis pecados dos seus filhos, mas também proteger a seus filhos dos castigos que Deus poderia infringir sobre eles, caso estivessem ofendido a Deus, mesmo que fosse com os pecados ocultos do coração.

Até aqui pode-se notar que não há nada de errado com os filhos de Jó. E existe razão bíblica para essa conclusão: o bom testemunho dos filhos de Jó faz parte de seu bom testemunho diante da sociedade de sua época.

O bom testemunho de Jó é atestado pelo narrador do livro - é disso que trata os versos 1-5 (especialmente o verso primeiro). Mas o narrador faz questão de atestar que o próprio Deus dá bom testemunho de Jó (1.8; 2.3). Se fosse o caso que os filhos de Jó fossem péssimos exemplos de jovens; se eles fossem conhecidos pelos escândalos de bebedice e orgias em família, isso com certeza afetaria o bom testemunho de Jó perante a sociedade e invalidaria o testemunho que o próprio Deus deu dele.

Por que então comumente se fala dos pecados dos filhos de Jó? A suspeita recai sobre aqueles que tratam o simples uso de bebida alcoólica como pecado. Estas pessoas tendem a acusar os filhos e filhas de Jó de beberrões pecadores. Isso é no mínimo um equívoco, mas pode mesmo ser um grave pecado. Equívoco porque estas pessoas não conseguem distinguir o que a Bíblia fala sobre o bom uso da bebida do uso pecaminoso dela. Aqui não é lugar para explicar esse particular. Mesmo assim, é recomendável observar o uso positivo que a Bíblia faz da bebida (não apenas suco de uva, mas vinho e bebida forte). Observe especialmente as seguintes passagens (Dt 14.26; Sl 104.15). Apesar disso, a Bíblia condena a embriaguez (1Co 5.11; 6.10) e o escândalo (Rm 14.13; 16.17), e restringe o uso da bebida alcoólica em situações especiais (Lv 10.9). Porém, não peca aquele que faz uso adequado da bebida, mas aquele que, conscientemente, o acusa de não seguir as normas humanas adotadas por seu grupo. 

Estas anotações fazem parte da exegese de Jó 1.1-5 que serviu à pregação na Igreja Reformada de Maceió.

Para assistir ao vídeo da pregação, clique Aqui.






#LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

COMENTÁRIO BÍBLICO LEVÍTICO 10.1-2 O que era o Fogo Estranho?



por Lucio Manoel

Levíticos 10.1-2

É recomendável a leitura dos capítulos 9 e 10 para melhor compreensão do contexto.

“Os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário (braseiro) e acenderam (puseram) nele fogo e colocaram sobre ele incenso; e aproximaram diante de Yahwweh fogo estranho que não tinha ordenado a eles. E saiu fogo de diante de Yahweh e consumiu eles; e morreram diante de Yahweh.”

Para que o leitor possa fazer comparações com as versões em Português, os versículos que são citados entre aspas são minha tradução do Texto Hebraico.

Algumas passagens bíblicas mostram pessoas comuns usando incensário, como no episódio da rebelião contra Deus, à porta da tenda da congregação (Nu 16). Mas o ato de queimar incenso é descrito posteriormente como serviço sagrado dos sacerdotes (Ex 30.1-10; 40.1-9; 16-27; Lv 16.1,12-13; Nu 16.40). 

Este capítulo dez de Levítico é um desdobramento negativo do capítulo 9. Dois dos novos sacerdotes, Nadabe e Abiú, filhos mais velhos de Arão, realizavam seus primeiros trabalhos no tabernáculo: oferecer incenso diante do SENHOR. Mas o serviço foi feito de modo diferente do que o SENHOR havia ordenado. Resultado: o SENHOR não aceitou a oferta, antes enviou fogo e matou Nadabe e Abiú. 

Fogo do SENHOR havia queimado as ofertas oferecidas sobre o altar, por ocasião da consagração destes sacerdotes (Lv 9.24). Este fogo pode ter subido da terra ou, o que é mais provável, descido do céu. Doze vezes se encontra no Antigo Testamento fogo descendo do céu (2Re 1.10). Claro é que ele procedera do SENHOR, em ambos casos.

Os sacrifícios oferecidos sobre o altar costumavam ser queimados totalmente até virar cinzas (Lv 6.10; 9.24). Neste caso, porém, algo diferente aconteceu com este fogo que saiu do SENHOR. Ele não consumiu totalmente a Nadabe e Abiú, nem mesmo suas vestes (Lv 10.5).

O fogo da ira de Deus consome. Deus é fogo consumidor (Lv 24.17; Nu 16.35; Dt 4.24; Am 1.12; 2.5; Hb 12.29). Quando o SENHOR derramou fogo sobre os sacrifícios (Lv 9.24), Ele indicou que aceitara a oferta oferecida pelo seu povo, a fim de não puni-lo. Assim funcionavam os sacrifícios em Israel. Eles eram uma lembrança e uma promessa que indicava que os israelitas eram aceitos diante de Deus, porque Deus propôs desviar sua ira de sobre os sacrificantes, descarregando-a sobre os animais. Essa instituição era provisória e ajudava o povo a aguardar a oferta perfeita que poria fim aos sacrifícios sangrentos (Hb 10).

Nesta passagem, porém,  Deus não aceitou a oferta do incenso queimado em sua presença, por isso enviou fogo sobre Nadabe e Abiú que morreram diante do SENHOR. Se é certo que eles entraram no Santo dos Santos - ver anotações posteriores, então foi diante da arca do testemunho que tombaram sem vida.

Nadabe a Abiú ofereciam o incenso. A descrição do serviço de oferecer incenso no tabernáculo gera alguma discussão em razão da localização do altar do incenso. Parece que, inicialmente, ele estava dentro do Santo dos Santos, juntamente com a arca da aliança (Ex 40.5; Hb 9.4). Posteriormente, precisamente por causa deste incidente que estamos avaliando, Deus muda o altar de lugar, e, consequentemente, acontece alguma mudança no modo como o serviço é realizado. Voltaremos a este ponto mais adiante.  

O altar era pequeno, de cerca de cinquenta centímetro quadrado, posicionado a um metro do chão (Ex 30.1-10). O incensário ou braseiro (Ex 27.3; 38.3; Lv 16.12) servia, provavelmente, tanto para transportar brasas do Altar do Sacrifício para o altar do incenso como para acender o fogo nele mesmo. 

Cada um deles tomou seu braseiro ou incensário e "deram fogo nele" וַיִּתְּנ֤וּ בָהֵן֙ אֵ֔שׁ. “acenderam (puseram) nele fogo e colocaram sobre ele incenso” bate com o serviço que Arão passou a fazer anualmente, no dia da Expiação (Lv 16.10-12). Essa sentença pode referir-se a acender o fogo diretamente no braseiro, ou, como vai ficar claro pela descrição de Levíticos 16.12, tomar brasas já acessas do altar (na minha opinião, o altar de sacrifícios, embora alguns pensem se tratar do altar de incenso). Acrescentaram incenso em pó sobre o fogo. O incenso devia ser uma combinação exclusiva de fragrância (Ex 30.34-38).

Nadabe e Abiú “aproximaram” o fogo estranho para Yahweh. Essa expressão pode indicar que Nadabe e Abiú entraram no Santo dos Santos. Esta é a designação mais usada para se referir a presença de Deus no tabernáculo (Ex 16.33; 27.21; 28.29,30; Lv 4.17). Eles levaram o incenso para além do véu, para diante de Yahweh. Até este momento, a Escritura não determinava os limites quanto ao número de vezes que se entraria no Santo dos Santos. Ao que parece, a restrição só foi dada quando da normatização do Dia da Expiação, e ligada com a morte de Nadabe e Abiú (Lv 16.1-2).

Retomada
Agora, voltem ao versículo primeiro, e prestem atenção à expressão “fogo estranho”. Algumas outras passagens bíblicas fazem referência ao incidente destacando que isso aconteceu “quando levaram fogo estranho perante Yahweh” (Nu 26.1), “ofereciam fogo estranho perante Yahweh (Nu 3.4)”. Ex 30.9 adverte contra o incenso estranho. "fogo estranho" talvez sejam palavras tomadas para significar o ato inteiro de queimar o incenso.

As maiores controvérsia neste capítulo estão relacionadas com esta expressão. Rooker [1] informa que entre os rabinos são oferecidas doze interpretações sobre a morte de Nadabe e Abiú. Entre os comentaristas cristãos, ele destaca as seguintes interpretações acerca do “fogo estranho”: penetrar demais no santuário; o fogo foi trazido de fora do tabernáculo; o incenso não estava de acordo com a exclusividade exigida (Ex 30.9); oferecer o incenso no momento errado do dia. 

Alguns têm sugerido que o erro de Nadabe e Abiú foi que eles tomaram fogo de outro lugar que não do altar (esta indicação só será mencionado em Lv 16.12). Outros têm indicado que o serviço devia ser feito individualmente, e não em dupla (pode ser). Outros falam que o serviço devia ser realizado exclusivamente pelo Sumo sacerdote (mas Lucas 1.8-10 mostra Zacarias, pai de João Batista, que não era Sumo sacerdote, realizando o serviço do incenso - ver também 2Cr 26.18). Outros dizem que o erro deles foi entrar no Santo dos Santos, o que só era permitido ao Sumo sacerdote (mas essa restrição só foi indicada depois do incidente com Nadabe e Abiú).

Keil e Delitzsch [2] são de opinião que além do fogo ter sido trazido de fora do altar, o incenso foi oferecido fora de tempo. Ele deveria ter sido oferecido pela manhã e no fim da tarde (Ex 30.7-8). Gostaria de explicar mais esta última posição, pois parece bastante plausível.

Em Ex 30.6-8 o SENHOR diz a Moisés que o incenso devia ser queimado sempre pela manhã e no final da tarde, quando o sacerdote fosse alimentar as lâmpadas que estavam no lugar Santo.

Inicialmente, o altar de incenso ficava junto com a arca da aliança, no lugar Santíssimo (Ex 30.6; 40.5,26; Hb 9.4). Porém depois do incidente com Nadabe e Abiú, o SENHOR proibiu a entrada diária dos sacerdotes no lugar Santíssimo para oferecer incenso (Lv 16.1,2), e determinou que apenas o Sumo sacerdote entrasse no Santo dos Santos com o incenso (Lv 16.12,13), apenas uma vez no ano, no dia da expiação (Lv 16.29-34). 

Então, ao que parece, a coisa errada não foi que Nadabe e Abiú entraram no Santo dos Santos com o incenso, pois isso estava previsto. Mas eles podem ter realizado o serviço fora do horário, ou seja, nem pela manhã nem pelo fim da tarde, mas na hora da refeição.

Se a narrativa do capítulo 10 segue-se logo após ao capítulo 9, como parece, então já haviam acontecido os sacrifícios da manhã (note Lv 9.17). Depois disso, Moisés entrou na tenda com Arão, possivelmente para comer a parte do sacrifício a que os sacerdotes tinham direito (Lv 9.23). E provavelmente ainda era hora da refeição quando Nadabe e Abiú foram mortos, pois Moisés sentiu falta dos sacerdotes mais novos que não estavam no lugar Santo, comendo sua parte do sacrifício (Lv 10.17).

Conclusão 
A opinião de que "fogo estranho" está ligado com o fato da oferta ter sido oferecida fora do horário indicado, parece adequada, embora não deva ser colocada sobre ela um epíteto de verdadeira, nem sobre outras interpretações, o epíteto de falsas. Não é tão simples entender qual foi o pecado de Nadabe e Abiú nesta passagem, não é? Porém, mesmo sendo difícil dar um significado exato para a expressão “fogo estranho” a conclusão é muito clara: Nadabe e Abiú realizaram o serviço a Deus de um modo errado. Eles realizaram o serviço de um modo não ordenado pelo SENHOR, eles não mostraram amor, respeito e sinceridade para com Deus, e por causa disso foram punidos com a morte. 

O descumprimento das normas referente à oferta de incenso não era coisa de somenos importância, pois esta oferta estava ligada com os sacrifícios diários. O incenso, conforme aprendemos de Apocalipse 5.8, tem ligação com as orações dos santos, que por sua vez dependem da obra sacrificial de Cristo, indicada no Antigo Testamento, pelos sacrifícios sangrentos. Por esta razão, Deus foi implacável com Nadabe e Abiú. Além disso, Deus queria deixar claro, desde o começo, Sua indignação com aqueles que se aproximam Dele com um coração irreverente. Deus quer ser adorado sinceramente e de acordo com o que Ele revelou em Sua palavra.

Deus marca a seriedade com que se deve tratar o ofício sagrado, logo no início, para despertar temor no coração dos homens. Podemos ver isso esse Êxodo 20 que mostra que o povo estava com medo de Deus (Ex 20.19-20). O povo não precisava ter medo, pois Deus não vinha a ele como inimigo, mas ainda devia ter medo a fim de não pecar contra Deus. Aquele que despreza a Deus não ficará impune (Ex 19.22).

O rigor do castigo no Édem, o rigor do castigo no Dilúvio, o rigor do castigo aplicado a Nadabe e Abiú, assim como posteriormente o rigor do castigo no caso de Uzá, todos estes casos mostram que Deus é misericordioso, mas Ele deixa prova de sua justiça entre seus filhos para que ninguém pense erradamente que Deus compactua com o pecado daquele que age com desprezo a Ele e a Sua palavra.

Aparecer diante do SENHOR e adorá-lo de modo errado, ofende a Deus e merece o castigo divino. Nadabe e Abiú provaram que isso é verdadeiro. Por isso, amor a Deus e sujeição à Sua palavra são coisas exigidas e necessárias para que se possa oferecer adoração aceitável e agradável a Deus.

NOTAS
[1] Rooker, M. F. (2000). Leviticus (Vol. 3A, p. 156–159). Nashville: Broadman & Holman Publishers.
[2] Keil and Delitzsch. Commentary on the Old Testament. Vol. 1. The Pentateuch. USA: Eerdmans, 1976. p. 351.

Estas anotações fazem parte da exegese de Levítico 10.1-7 que serviu à pregação na Igreja Reformada de Maceió.


Para assistir ao vídeo da pregação, clique Aqui.




#LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

COMENTÁRIO BÍBLICO ÊXODO 20.1 Quem pronunciou as palavras dos Dez Mandamentos ao povo: Deus ou Moises?

Mosteiro de Santa Catarina, sopé do monte Sinai

por Lucio Manoel

"Então, falou Deus todas estas palavras:"
Para que o leitor possa fazer comparações, os versículos que são citados entre aspas são minha tradução do texto hebraico.

O contexto mais amplo destas palavras é o registro da chegada do povo de Israel ao Sinai, três meses depois dele ter sido libertado pela mão poderosa de Deus, da escravidão do Egito (Ex 19.1). Sugiro a leitura dos capítulos 19 e 20 de Êxodo para familiarizar-se com a questão em discussão.

Deus veio ao encontro do seu povo no pico do monte Sinai (Ex 19.10,11,16-24; 20.18-21). A manifestação de Deus no monte foi marcada por sinais maravilhosos "sons (trovões), tochas (relâmpagos), fumaça (espessa nuvem) e som de trombeta".

Não é cláusula evidente que o povo discernia o que Deus falava, mas sem dúvida é evidente que ele compreendia que o fenômeno evidenciava a presença de Deus que bradava, do monte (Ex 20.18,22).


O final do capítulo 19 se encerra com uma frase inconclusa. “Moisés desceu ao povo e falou para eles” (Ex 19.25). Algumas traduções incluem “isso”, mas o pronome demonstrativo não aparece no texto hebraico. Ele é uma sugestão dos editores de que a referência da frase seja conclusiva às palavras contantes nos versos anteriores (Ex 19.20-24). Estes versos descrevem a fala de Deus a Moisés em termo de “advirta o povo para que não ultrapasse o limite” (v. 21), isto é, não suba ao monte, mas mantenham-se do sopé do monte para trás. Deus falou ainda que “os sacerdotes, que se chegam a Yahweh, devem santificar-se” (v. 22), e que Arão devia subir ao monte com Moisés (v. 24). A sentença significaria, então, que Moisés, quando desceu ao povo, declarou-lhe o que Deus havia lhe dito enquanto estava com Ele, no monte.


Essa abordagem favorece o entendimento que o capítulo seguinte está descontinuado do final do capítulo anterior, e favorece a tese que os Dez Mandamentos tenham sido pronunciados diretamente por Deus.


Do outro lado, discute-se se a ausência de um pronome demonstrativo no final do capítulo 19 “Moisés desceu ao povo e falou para eles” pode indicar um “dois pontos com caráter recitativo” abrindo a declaração que se segue, isto é, os Dez Mandamentos (Ex 20). Diferentemente do ponto de vista indicado anteriormente, aqui se sugere que as palavras dos Dez Mandamentos são pronunciadas ao povo por Moisés.


Não é fácil chegar a uma conclusão, não obstante nada será tirado do valor dos Dez Mandamentos, seja qual for a conclusão. No entanto, para não deixar a discussão em suspense, vale a pena ponderar as opiniões. Antes, porém, deve ser deixado claro que, apesar dos pontos de vistas diferentes, ambas opiniões afirmam que o povo compreendeu que o fenômeno do monte não se tratava meramente de um acontecimento natural com barulho de trovões, fumaça, relâmpago. O povo compreendeu que Deus mesmo estava falando, do monte. O povo testemunhou isso a Moisés (Ex 20.19, veja também Hb 12.19).


Deus mesmo pronunciou os Dez Mandamentos ao povo. Depois da descrição geral do verso 16 (Ex 19.16), o verso 18 (Ex 19.18) exclui os sons (trovão) e o som da trombeta como evidências da presença de Deus - cita apenas fumaça, fogo e tremor. Enquanto que no verso 19 (Ex 19.19) “O som da trombeta continuava e se tornava mais forte” está em paralelismo com “Moisés falava e Deus lhe respondia com o som”, isto é, o som da trombeta. A voz de Deus era compreensiva a Moisés e provavelmente, também ao povo. É provável que o povo discernia o que Deus estava falando por meio do som dos trovões e especialmente da trombeta, mas o fenômeno era tão terrível que o povo não podia suportá-lo e por isso pedem a ajuda de Moisés (Ex 20.19).

Outro destaque importante é a pressuposição de que o povo ouvira os Dez Mandamentos diretamente de Deus. Lê-se em Ex 20.22 que Deus mandou Moisés relembrar o povo que este tinha ouvido a voz do próprio Deus, desde os céus. Os versos seguintes, então, vs. 23,24, são tomados como inclusivas, para evitar repetir todos os Dez Mandamentos, ao mesmo tempo em que enfatiza os primeiros mandamentos que servem de base para todos os outros. É como se Moisés lembrasse o povo com essas palavras, as palavras que o povo tinha ouvido diretamente de Deus.

Em Deuteronômio 5.22-27, Moisés reconta ao povo que estava prestes a entrar em Canaã o que ocorrera quarenta anos antes. Este relato está levemente modificado em relação ao relato de êxodo, mas isso pode ser explicado pelo fato que entre os israelitas haviam muitos que não estavam presente na época do ocorrido, necessitando acrescentar algum detalhes não constantes no primeiro relato. Moisés indica que estava recebendo por escrito nas duas tábuas o que Deus havia falado do monte (leiam especialmente os vs. 22,23).

Quando o escritor Aos Hebreus citou o acontecimento no contexto do culto do Novo Testamento, ele fala não apenas dos sons dos trovões, mas também de palavras (Hb 12.19). Isso sugere que os sons foram palavras compreensivas.


Moisés pronunciou os Dez Mandamentos ao povo. Não obstante o povo ter ouvido a voz de Deus, a afirmação de que o povo compreendia as palavras, é duvidosa. O fato que o povo reconheceu que Deus falara desde o pico do monte Sinai, não reclama evidência de que o povo O ouvira compreensivamente (Ex 20.18,19). Era suficiente ao povo reconhecer que Deus viera ao seu encontro no monte. Isso foi evidenciado nos sinais maravilhosos (Ex 19.16; 20.18) e reconhecido pelo povo (Ex 20.19). Mas a compreensão das palavras seria mediada por Moisés que subira a Deus para ouvi-las e transmiti-las ao povo. Essa tem sido a dinâmica em todo Pentateuco. Moisés ouve de Deus e fala ao povo (Ex 19.3).


Em Êxodo 19.19, a primeira frase “O som da trombeta (ou buzina, dependendo da tradução) ia aumentando" está em paralelismo com a segunda frase “Moisés falava e Deus respondia no som (algumas traduções complementam "da trombeta")”. O texto hebraico fala apenas de “som” ק֣וֹל, mas o complemento "da trombeta" é justificado pelo paralelismo do verso e também pelo uso anterior de Ex 19.16. O texto indica que Moisés conversava com Deus, compreensivamente. Moisés fazia perguntas, buscava esclarecimentos, recebia ordenanças (Ex 19.20-24). No entanto, a narrativa, neste ponto, acontece no alto do monte. Se a voz de Deus era compreensiva, o era apenas para Moisés, enquanto o povo aguardava que Moisés descesse e lhe relatasse as palavras de Deus (Ex 19.25).

Em Deuteronômio 5.5 Moisés relembra ao povo que estava às portas de Canaã, que quarenta anos antes, quando Deus aparecera aos israelitas no cume do monte Sinai, Yahweh falava, mas era ele, Moisés, quem transmitia as palavras do Senhor ao povo (Dt 5.27). Possivelmente o povo não compreendia as palavras de Deus por causa do terror da manifestação da sua glória, necessitando de um Mediador que pudesse fazer a vez de Deus diante dele.

Esta segunda opinião se ajusta melhor ao contexto geral da revelação de Deus ao seu povo. Deus falava com Moisés face a face (Dt 34.10) e Moisés, como um Mediador que servia de tipo para Cristo, por meio de quem Deus revelaria a plenitude da sua vontade (Hb 1.1-4), falava ao povo (Ex 19.25; 20.19). Isso não significa que o povo estava excluído do fenômeno inteiro. Moisés chega a dizer que todo o povo viu Deus face a face (Dt 5.4). De fato, a manifestação geralmente era visível ao povo (Ex 13.21; 19.16; 20.18; 1Re 8.10), não, porém, a comunicação verbal, que ficava com seus porta-vozes, os profetas.



Estas anotações fazem parte da exegese de Êxodo 20.18-21 que serviu à pregação na Igreja Reformada de Maceió.

Para assistir ao vídeo pregação, clique Aqui.




#LucioManoelVDM

Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil