ARMINIANOS OU REMONSTRANTES? Uma breve avaliação - por Abram de Graaf

SÍNODO INTERNACIONAL DE DORT

A variedade entre os Arminianos ou Remonstrantes
por Abram de Graaf 

Faz pouco tempo que alguém me pediu para escrever alguma coisa sobre "arminianos ou remonstrantes". Considero esse um bom pedido, pois não existe muito conhecimento no meio das igrejas reformadas sobre a variedade e as divergências entre os remonstrantes, assim como também não existe muito conhecimento sobre a variedade e as divergências a respeito da doutrina da graça e da predestinação.


​Pensando sobre o pedido acima, achei melhor usar o livro de Roger E. Olson, Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Ele oferece um panorama histórico dos remonstrantes e fala de modo bem resumido sobre as divergências entre eles. Usei o material de Olson porque ele mesmo é arminiano e conhece muito bem as diferenças entre os remonstrantes, como os pontos seguintes mostram.

1. Jacó Armínio (1560 – 1609) morreu como pastor e professor das igrejas reformadas na Holanda. Nos seus últimos anos, ele teve muitas discussões com Francisco Gomarus que era um supralapsarianista e monergista, enquanto Armínio era sinergista.

2. Depois da morte de Armínio, os amigos e alunos dele, por exemplo, Uytenbogaard e Simão Episcópio (1583-1643) e Hugo Grócio (1583 – 1645), reuniram-se e escreveram a Remonstrância. Nesse documento, eles resumiram a sua fé em cinco pontos falando sobre a sua salvação em Cristo Jesus. O que chamou a atenção foi o ponto que diz que o homem pode resistir a graça de Deus. Eles foram chamados “os Remonstrantes” e foram condenados pelo Sínodo de Dort em 1618/19. Simão Episcópio se tornou líder dos Remonstrantes e foi provavelmente o autor dos principais documentos do Remonstrantismo daquela época.

3. Um remonstrante da terceira geração é Philip Limborch (1633-1712). Ele levou a teologia do arminianismo para mais perto do liberalismo, com o subsequente “arminianismo de cabeça”. A teologia de Limborch estava mais próximo do semipelagianismo do que os ensinos de Armínio. Olson observou que “A partir da época de Limborch, muitos arminianos, em especial aqueles na Igreja de Inglaterra e nas igrejas congregacionais, mesclaram o arminianismo com a nova religião natural do Iluminismo; eles se tornaram os primeiros liberais dentro do protestantismo.”

4. Na Nova Inglaterra, John Taylor (1694-1761) e Charles Chauncy (1706-1787), de Boston, representavam o ‘arminianismo de cabeça’ que, com frequência e perigosamente, inclinava-se ao pelagianismo, universalismo e até mesmo ao arianismo (negação da plena deidade de Cristo).

5. João Wesley (1703-1791) se intitulava “arminiano” e defendeu o arminianismo das acusações de que ele levava à heterodoxia e, se não, à total heresia. Wesley defendeu o sinergismo ao enfatizar que a graça preveniente de Deus é absolutamente necessária para a salvação. Wesley é a maior fonte do ‘arminianismo de coração’. Após a morte de Wesley, a maioria dos teólogos arminianos preeminentes tornaram-se seus seguidores. Wesley ensinou a possibilidade da plena santificação, que não é típica de todos os arminianos, mas que é consistente com os ensinamentos do próprio Armínio.


6. O primeiro teólogo sistemático do metodismo foi, de fato, John Fletcher (1729-1786), cujas obras escritas preenchem nove volumes. Ele produziu cuidadosos e hábeis argumentos contra o calvinismo e em favor do arminianismo.

7. Um dos teólogos arminianos mais influentes do século XIX foi o metodista britânico Richard Watson (1781-1833), cujas Institutas Cristãs (1823) forneceram ao metodismo seu primeiro texto autoritativo de teologia sistemática.  Ele demonstrou cuidadosamente a deserção dos remonstrantes posteriores, tal como a de Limborch, da verdadeira herança arminiana. O arminianismo de Watson fornece uma espécie de modelo de excelência para os arminianos evangélicos, ainda que, em grande parte, não seja aplicável aos dias de hoje.

8. Entre os metodistas importantes e teólogos arminianos do século XIX, incluem-se Thomas Summers (1812-1882). Ele escreveu a Systematic Theology: A Complete Body of Weslean Arminian Divinity (1888), que se tornou um compêndio padrão para os arminianos na última parte do século XIX. Como Watson, ele mostra o abandono de Limborch e outros remonstrantes posteriores de Armínio (e dos primeiros remonstrantes) para o semipelagianismo e à teologia liberal.

9. William Pope (1822-1903) contribuiu com um sistema de teologia de três volumes: A Compendium of Christian Theology (1874). Ele apresenta uma descrição detalhadamente protestante da teologia arminiana, que não deixa dúvidas acerca de seu compromisso com a teologia reformada, incluindo a salvação pela graça por meio da fé somente.

10. Um dos teólogos arminianos mais controversos do século XIX foi o sistematicista metodista John Miley (1813-1895), cuja Systematic Theology levou B.B. Warfield, teólogo calvinista de Princeton, a publicar um extenso ataque. Miley apresentou uma tendência ligeiramente liberalizante na teologia arminiana wesleyana. Embora tenha alterado algumas posições arminianas tradicionais em uma direção mais moderna, Miley permaneceu um arminiano evangélico. De algumas formas, ele representa uma ponte entre o arminianismo evangélico e o ortodoxo (Armínio, Wesley, Watson, Pope e Summers).

11. Charles Finney (1792-1875) vulgarizou a teologia arminiana ao negar algo que Armínio, Wesley e todos os arminianos fieis que lhe antecederam haviam afirmado e protegido. Estes afirmaram a depravação total herdada, como a total incapacidade independente de um despertamento sobrenatural, despertamento este chamado de graça preveniente. Mas Finney negava a necessidade da graça preveniente. Para ele, razão, desenvolvida pelo Espírito Santo, faz com que o coração se volte para Deus. Ele chamou a doutrina arminiana clássica da habilidade graciosa (habilidade de exercer uma boa vontade para com Deus outorgado pelo Espírito Santo através da graça preveniente) de um “absurdo”.

12. O século XX testemunhou o fim do sinergismo evangélico entre as principais denominações, incluindo o Metodismo, na medida em que caíram na teologia liberal. O arminianismo absolutamente não conduz ao liberalismo, e isso está provado pelo crescimento das formas conservadoras do arminianismo entre os Nazarenos, pentecostais, batistas, igrejas de Cristo e outros grupos evangélicos. Todavia, muitos destes arminianos do século XX negligenciam ou mesmo rejeitam o rótulo de arminiano por uma variedade de razões, não sendo uma das menos importantes o sucesso dos calvinistas em definir o arminianismo de acordo com a teologia de Finney, que era considerado como modelo de um verdadeiro arminiano.

13. H. Orton Wiley (1877-1961), líder da igreja do Nazareno, que escreveu a obra Christian Theology de três volumes e um resumo de um volume da doutrina cristã, manteve o rótulo arminiano. O arminianismo de Wiley é uma forma particularmente pura do arminianismo clássico com o acréscimo do perfeccionismo wesleyano (que nem todos os arminianos aceitam). Toda bondade, incluindo as primeiras inclinações do coração para com Deus, é atribuída unicamente à graça de Deus. Como Watson, Summers, Pope e Miley, Wiley insiste em uma diferença entre semipelagianismo e o verdadeiro arminianismo.  

14. Outro teólogo arminiano do século XX é o metodista evangélico Thomas Oden. A sua obra The Transforming Power of Grace (1993) é uma pedra preciosa da soteriologia arminiana. Mas o próprio Oden não se considera como arminiano.

15. Outros teólogos arminianos do século XX (alguns dos quais não querem ser chamados de arminianos) são os batistas Dale Moody, Stanley Grenz, Clark Pinnock e H. leroy Forlines, Jack Cotrell e os metodistas I. Howard Marshall e Jerry Walls.

Uma das dúvidas que está ligada com essa definição dos remonstrantes é se os arminianos são seguidores críticos de Calvino ou se eles são um desvio do Calvinismo; Eles fazem parte do grande movimento do protestantismo, como os Luteranos, ou devem ser considerados como heréticos, como os pelagianos e semipelagianos? Na próxima postagem, eu planejo escrever um pouco mais acerca disso.

Livro de referência: OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Reflexão, 2013.

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