segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Qual é o nome da minha Igreja?


Qual é o nome da minha Igreja? 

Este texto foi publicado originalmente como um comentário do seminarista Iraldo Luna em uma postagem do Facebook com o título "Qual é o nome da minha Igreja?" De autoria do pastor Kenneth Wieske. O documento é público, mas recebemos autorização para reposta-lo no blog.

Faz algum tempo que venho refletindo sobre este assunto tão importante para nossa vida eclesiástica. De fato, hoje a minha igreja (a igreja onde sou um membro) está numa situação eclesiástica nacional que requer de nós muita reflexão acerca do que somos como igreja, e isso repousa principalmente sobre o que entendemos o ser igreja. Muitos perigos nos cercam quando o assunto é igreja e o uso de seu nome. O poder do denominacionalismo sem dúvida é muito forte nas igrejas e no pensamento e vida dos cristãos (verdadeiros inclusive). 

Muitas igrejas evangélicas funcionam como um império, no qual se senta para governa o seu "imperador", ou melhor, "papa", ao qual todos os súditos (igrejas e indivíduos) devem se submeter, e dele esperar as decisões canônicas. Já outras perderam sua identidade de igreja de Cristo para uma marca eclesiástica, como se a igreja fosse uma marca que se espalha pelo nosso país. Isso certamente é uma ameaça ao poder e à identidade da igreja local, que, assim, foi instituída pelo próprio Cristo, que a governa por meio dos presbíteros.

Logo, isso nos leva a pensar sim acerca do modo como usamos o nome da igreja. Contudo, uma regra básica, como bem sabemos, é que em primeiro lugar a Escritura fala e depois vêm as nossas preocupações. As Escrituras sim são o juiz supremo de toda discussão e disputa e a nossa única regra de fé e prática, não as nossas tradições e preocupações com a pureza da igreja (quando essa ordem é trocada, a igreja cai, e assim repousa, nas mãos das regras e leis dos homens.

A própria Bíblia se refere à igreja de Cristo numa certa região usando o singular. De fato, é verdadeiro que, na maioria dos casos, a referência é ao plural. Mas isso, ao meu ver, não nos autoriza a estabelecer uma verdade "absoluta" acerca desta questão. Seria forte de mais dizer que devemos praticar algo, considerando o diferente com incorreto, apenas com base no "normalmente". Podemos dar outros exemplos e isso não seria suficiente para estabelecer uma regra. É o caso do modo como a Escritura chama o que chamamos de ministros da Palavra. NORMALMENTE, a Bíblia se refere a estes como bispos ou presbíteros. Se nós considerarmos que textos como 1 Tm. 3; 5:17 Tt. 15 como se referindo tanto a presbíteros propriamente quanto a ministros, teríamos, seguindo mesmo princípio, que chamarmos apenas os nossos pastores de presbíteros, já que eles assim são chamados "normalmente".

Outra questão é o uso do exemplo dos Estados brasileiros. Acho que, neste ponto, deveria ser levado em conta o fator geográfico, o qual pode mudar um pouco a natureza da comparação. Por exemplo, seria muito estranho para nós referirmo-nos a um Estado em específico como "República Federativa do Brasil" visto ser óbvio que ele faz parte do Brasil e nesta República está. Mas meu ponto é exatamente esse. A estranheza surge por um fator geográfico. Todos os Estados brasileiros estão dentro de um limite geográfico que os impossibilita de serem nomeados pelo nome da federação. 

Contudo, vamos considerar a possibilidade de existência de um Estado brasileiro em terras argentinas ou uruguaias. Seria incorreto se referir àquele Estado brasileiro como “República Federativa do Brasil"? Acredito que tal nome não causaria estranheza aos argentinos ou uruguaios. Acredito que isso poderia representar um pouco a nossa situação eclesiástica atual. A Confederação das Igrejas Reformadas do Brasil, por exemplo, não estão restritas aos mesmos limites geográficos, mas estão espalhadas pelo Brasil, entre muitas outras igrejas, dentre essas algumas que se chamam também de reformadas. Isso pode fazer necessário a identificação de que fazemos parte de uma parte da igreja de Cristo que se chama IRB (Igrejas Reformadas do Brasil).  

Acho que neste ponto devemos considerar a existência de duas verdades que aparentemente se chocam (paradoxo), mas que, na verdade, enfatizam coisas diferentes, como pode ser o caso de chamar conjunto de "igrejas" ou "igreja". Talvez a preocupação maior deva ser entender o conceito de uma confederação de igrejas não como uma denominação, mas como um conjunto de igrejas de Cristo que são a igreja (ou parte dela) de Cristo. E aí basicamente dois perigos são notórios. 

Primeiro, o modo como entendemos o que é a igreja local e as assembléias ligadas a ela. Se entendermos a igreja local como uma parte da igreja instituída e não como a igreja em si, nós certamente cairíamos no denominacionalismo, que é antibíblico; o que aconteceria da mesma forma se considerássemos as assembleias eclesiásticas como igrejas instituídas e não como apenas assembleias com autoridade de igrejas locais, sim, instituídas. 

Segundo, outra ameaça do denominacionalismo se reflete no modo como enxergamos as outras igrejas ao nosso redor. Se nos consideramos como A IGREJA, o modelo e a noiva mais querida de Cristo, cairemos sem sombra de dúvidas num denominacionalismo cruel e arrogante, pois estaremos evocando a idolatria de um grupo de igrejas separadas que se autodenominam A IGREJA. Isso colocaria um grupo de igreja numa categoria especial com uma identificação própria como se fosse, no final das contas, uma marca ou modelo. Esse não é o entendimento de igreja de Cristo, se considerarmos a palavra de Deus especialmente no Novo Testamento.

Por fim, gostaria de concluir dizendo que parece que a escolha entre "igreja" e "igrejas" para uma confederação está mais ligada a questões práticas e aplicativas que irão interferir no que queremos enfatizar acerca deste tema. Pessoalmente, prefiro o nome "Igreja Reformada em (de) tal lugar" à outra forma, contudo não teria problema em aceitar o contrário. Essa seria a minha preferência mais pelos perigos do que pelas razões teológicas. 

Iraldo Luna é seminarista das Igrejas Reformadas do Brasil. Ele concluiu os estudos acadêmicos em 2014 e está cumprindo estágio na Igreja Reformada em Maragogi/AL, neste ano de 2015.

Acesse para ver a postagem na íntegra:
https://www.facebook.com/notes/igrejas-reformadas-do-brasil/qual-é-o-nome-da-minha-igreja/333003866780818

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