terça-feira, 3 de novembro de 2015

Lutero, o Reformador músico


Lutero, o Reformador músico 
Lucio Mauro

Antiguidade da música sacra 
Ao longo da história medieval a Igreja Romana havia limitado o cântico, na igreja, aos clérigos, e as músicas eram cantadas em Latim. Nas missas, restava ao povo ouvir e admirar a riqueza dos cânticos (às vezes, os cânticos não passavam de sussurros dos monges, que os tornavam, incompreensíveis até mesmo aos experientes).

Os Entusiastas
Na época da Reforma Protestante, um movimento chamado "Entusiastas" (Tomás Munster, que liderou os camponeses em Turíngia, mas foi derrotado com seu exército e punido com a morte por decapitação, em 27 de maio de 1525, foi um entusiasta) não apenas desafiava a igreja no campo da doutrina e da prática cristã, mas também no campo da hinologia. Apesar disso, o grande apreço desse movimento pelos Salmos contribuiu para que a Palavra de Deus fosse colocada na boca do povo. 

A música na vida do Reformador alemão 
Lutero cresceu cercado de música. Desde os primeiros anos de estudos na escola de Mansfeld, e mais decisivamente, na universidade de Erfurt, onde Lutero aprendera o cântico gregoriano, e mais tarde, estudando teologia com os agostinianos, aliou-se definitivamente à devoção destes monges com a música. Vale lembrar que à época, a formação mais qualificada se dava por meio das artes liberais, com seu conteúdo proposto pelo Imperador Carlos V: gramática, lógica, dialética, aritmética, geometria, astronomia e música. Lutero aprendeu a tocar vários instrumentos musicais, mas o seu preferido era o Alaúde (instrumento de corda) do qual se diz que ele teria levado consigo na viagem a Worms (ocasião em que aconteceu a Dieta quando Lutero foi chamado a explicar suas opiniões diante do Imperador Carlos V). 

Lutero e a música secular 
Lutero não aprovava apenas os cânticos que eram cantados nas igrejas, mas também músicas consideradas seculares. Ele chegou a lamentar que houvesse tanta coisa ruim em músicas sacras enquanto que se podia achar tanta coisa boa entre as músicas seculares. Até mesmo as músicas apropriadas para dança eram bem vistas por Lutero, embora ele mesmo não tivesse o hábito da dança (ao contrário do amigo Melanchton).  

Lutero e a música na igreja
Apesar disso, Lutero pode ser considerado conservador em relação à música. Ele não fez uso de músicas contemporâneas até a adoção da Missa Alemã (1523), mantendo até lá o cântico gregoriano e músicas tradicionais da Missa Latina. Quando a igreja alemã adotou cânticos contemporâneos, Lutero mesmo tratou de fazer as modificações necessárias de acordo com sua teologia, o que ele já havia feito com as músicas da Missa Latina.

Lutero, o Pai do cântico congregacional
Lutero não entendia que somente os Salmos deviam ser cantados no culto, mas a música, como uma arte, pertencia a Deus. Ele não concordava com a limitação do cântico aos monges, mas queria ver a música servindo na adoração pública, e para ensinar o povo as verdades bíblicas e principais doutrinas da igreja. Para isso, procurava por profissionais que pudessem servir com seus talentos para trazer hinos ao nível de acessecibilidade e compreensão dos mais simples. Até mesmo os corais nas igrejas não eram apresentações separaras da congregação, mas deviam servir para ajudar o povo na adoração.
O mesmo cuidado que Lutero tinha ao fazer a tradução da Bíblia para o Alemão, de maneira a manter a linguagem acessível ao povo, ele mantinha igualmente na tradução e adaptação de certos hinos em Latim para o Alemão. A escolha de palavras, o cuidado com a estrutura das frases serviam para tocar o povo tanto com a impressão como com a expressão da música. 

Beleza musical 
A classificação da música como arte está relacionado com a estética artística característica do período medieval, da qual Lutero fez amplo uso nos arranjos das melodias que desenvolveu, bem como na beleza estilística das palavras e rimas. Assim, o canto gregoriano, marcado por uma linha rítmica deu lugar  as múltiplas linhas rítmicas, como acontecia nos corais. A melodia tranquila contribuía para maior reflexão e, consequentemente, para a edificação dos fiéis. Lutero também esperava que o envolvimento, especialmente dos jovens, com os corais os livrasse das músicas más tão populares nas tabernas, em toda Alemanha.

Renovação musical da igreja
Algumas pessoas queriam uma mudança abrupta na adoração pública, mas Lutero se diferenciou de seus colegas (Melanchton e Karlstadt, por exemplo), nesse ponto, pois entendia que as mudanças no culto deviam ser gradativas, levando-se em conta a capacidade dos fiéis de assimilar as modificações. Música com impressão (sensibilidade emocional) e expressão (apelo à compreensão da mensagem transmitida) deviam ser adotadas paulatinamente e com o devido cuidado profissional. Por isso, Lutero insistia que os hinos fosse publicados sempre com suas notas musicais.

Hinos de Lutero
Um número muito grande de hinos chega a ser indicado como sendo de autoria do Reformador. Alguns falaram em 137 hinos, mas isso pode ser um exagero. Apesar disso, estima-se que acima de 30 hinos de Lutero podem ter sido preservados e podem ser encontrados nos diversos horários em língua portuguesa.  
O tempo que passou no castelo de Warburt, debaixo da proteção do Príncipe Frederico, da Saxônia, não serviu apenas à tradução dos textos sagrados gregos e hebraicos (além da usual Vulgata Latina) para o idioma Alemão, mas também para escrever cartas à várias pessoas amigas, a cantar e tocar seus instrumentos (flauta, alaúde) e a compor seus primeiros hinos. O primeiro deles talvez tenha sido: "Um belo hino dos mártires de Cristo queimados em Bruxelas pelos sofistas de Lovaina", em 1523. Esse hino celebra a morte de dois monges que estavam acompanhando de perto os ensinos de Lutero e foram por isso queimados, em praça pública. Lutero reagiu ao acontecimento escrevendo cartas aos cristãos dos Países Baixos e compondo o hino em honra a estes a quem considerou "mártires". No ano seguinte, foi publicado sua tradução dos Salmos e um Hinário Espiritual contendo 32 hinos (alemãs e latinos). 

Primeiro hinário 
Até então, os hinos circulavam separadamente. O termo "Hinário" para se referir ao conjunto dos hinos destinados ao culto cristão, todavia só se tornou popular a partir do século XVIII. No entanto, o Hinário de Wittemberg, com 32 hinos, pode ser considerado um dos primeiros hinários,  publicado em 1524.
O Pai Nosso foi musicado por Lutero, pela primeira vez em 1539. "A melodia, de 1530, é de Johanes Walter, compositor e parceiro de Lutero na organização de vários hinários, como o de Wittenberg "
       
Hino "Castelo forte (ou Fortaleza Poderosa) é Nosso Deus" (O hino Ein feste Burg ist unser Gott)
Este cântico tão popular de Lutero é considerado o Hino de Batalha da Reforma Protestante devido ao efeito produzido no apoio à causa dos Reformadores. A teoria mais popular é a que diz que Lutero teria composto este hino enquanto lia o Salmo 46, preparando-se para comparecer à Dieta de Worms (1521). Essa posição é citada por John Julian, entre outras três que listou. Citando Heinrich Heine, Julian diz que "Castelo Forte" teria sido cantado por Martinho Lutero e seus companheiros, quando entraram em Worms, em 16 de abril de 1521, para a Dieta (Reforma21).

No entanto, evidências apontam que o registro mais antigo deste hino só aparece no Hinário Espiritual de 1524, enquanto que o hino "Um belo hino dos mártires de Cristo queimados em Bruxelas pelos sofistas de Lovaina" tem apoio em uma data anterior, 1523. No entanto, em ambos caso, pode ter acontecido uma composição e até uso do hino em uma data anterior ao seu registro ou publicação. Desta forma, a questão não fica definida.


Livro texto:
Lutero, Martinho. Obras Selecionadas: comunidade, Ministério, culto, sacramentos, visitação, catecismos, hinos. São Leopoldo: Comissão Interluterana de Literatura, 2000, p. 470-573. 

Leia Mais:
http://www3.est.edu.br/biblioteca/btd/Textos/Mest_Prof/Trentini_ma_tmp09.pdf
http://reforma21.org/blog/castelo-forte-e-nosso-deus.html
http://www.cih.uem.br/anais/2011/trabalhos/326.pdf
http://dev.vethia.com.br/wordpress/chhm/wp-content/uploads/2015/06/Martinho-Lutero-e-os-usos-da-musica-O-passa-do-ainda-canta-Suenia-Barbosa-de-Almeida.pdf


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