terça-feira, 29 de dezembro de 2015

ARMINIANOS OU REMONSTRANTES? Uma breve avaliação - por Abram de Graaf

SÍNODO INTERNACIONAL DE DORT

A variedade entre os Arminianos ou Remonstrantes
por Abram de Graaf 

Faz pouco tempo que alguém me pediu para escrever alguma coisa sobre "arminianos ou remonstrantes". Considero esse um bom pedido, pois não existe muito conhecimento no meio das igrejas reformadas sobre a variedade e as divergências entre os remonstrantes, assim como também não existe muito conhecimento sobre a variedade e as divergências a respeito da doutrina da graça e da predestinação.


​Pensando sobre o pedido acima, achei melhor usar o livro de Roger E. Olson, Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Ele oferece um panorama histórico dos remonstrantes e fala de modo bem resumido sobre as divergências entre eles. Usei o material de Olson porque ele mesmo é arminiano e conhece muito bem as diferenças entre os remonstrantes, como os pontos seguintes mostram.

1. Jacó Armínio (1560 – 1609) morreu como pastor e professor das igrejas reformadas na Holanda. Nos seus últimos anos, ele teve muitas discussões com Francisco Gomarus que era um supralapsarianista e monergista, enquanto Armínio era sinergista.

2. Depois da morte de Armínio, os amigos e alunos dele, por exemplo, Uytenbogaard e Simão Episcópio (1583-1643) e Hugo Grócio (1583 – 1645), reuniram-se e escreveram a Remonstrância. Nesse documento, eles resumiram a sua fé em cinco pontos falando sobre a sua salvação em Cristo Jesus. O que chamou a atenção foi o ponto que diz que o homem pode resistir a graça de Deus. Eles foram chamados “os Remonstrantes” e foram condenados pelo Sínodo de Dort em 1618/19. Simão Episcópio se tornou líder dos Remonstrantes e foi provavelmente o autor dos principais documentos do Remonstrantismo daquela época.

3. Um remonstrante da terceira geração é Philip Limborch (1633-1712). Ele levou a teologia do arminianismo para mais perto do liberalismo, com o subsequente “arminianismo de cabeça”. A teologia de Limborch estava mais próximo do semipelagianismo do que os ensinos de Armínio. Olson observou que “A partir da época de Limborch, muitos arminianos, em especial aqueles na Igreja de Inglaterra e nas igrejas congregacionais, mesclaram o arminianismo com a nova religião natural do Iluminismo; eles se tornaram os primeiros liberais dentro do protestantismo.”

4. Na Nova Inglaterra, John Taylor (1694-1761) e Charles Chauncy (1706-1787), de Boston, representavam o ‘arminianismo de cabeça’ que, com frequência e perigosamente, inclinava-se ao pelagianismo, universalismo e até mesmo ao arianismo (negação da plena deidade de Cristo).

5. João Wesley (1703-1791) se intitulava “arminiano” e defendeu o arminianismo das acusações de que ele levava à heterodoxia e, se não, à total heresia. Wesley defendeu o sinergismo ao enfatizar que a graça preveniente de Deus é absolutamente necessária para a salvação. Wesley é a maior fonte do ‘arminianismo de coração’. Após a morte de Wesley, a maioria dos teólogos arminianos preeminentes tornaram-se seus seguidores. Wesley ensinou a possibilidade da plena santificação, que não é típica de todos os arminianos, mas que é consistente com os ensinamentos do próprio Armínio.


6. O primeiro teólogo sistemático do metodismo foi, de fato, John Fletcher (1729-1786), cujas obras escritas preenchem nove volumes. Ele produziu cuidadosos e hábeis argumentos contra o calvinismo e em favor do arminianismo.

7. Um dos teólogos arminianos mais influentes do século XIX foi o metodista britânico Richard Watson (1781-1833), cujas Institutas Cristãs (1823) forneceram ao metodismo seu primeiro texto autoritativo de teologia sistemática.  Ele demonstrou cuidadosamente a deserção dos remonstrantes posteriores, tal como a de Limborch, da verdadeira herança arminiana. O arminianismo de Watson fornece uma espécie de modelo de excelência para os arminianos evangélicos, ainda que, em grande parte, não seja aplicável aos dias de hoje.

8. Entre os metodistas importantes e teólogos arminianos do século XIX, incluem-se Thomas Summers (1812-1882). Ele escreveu a Systematic Theology: A Complete Body of Weslean Arminian Divinity (1888), que se tornou um compêndio padrão para os arminianos na última parte do século XIX. Como Watson, ele mostra o abandono de Limborch e outros remonstrantes posteriores de Armínio (e dos primeiros remonstrantes) para o semipelagianismo e à teologia liberal.

9. William Pope (1822-1903) contribuiu com um sistema de teologia de três volumes: A Compendium of Christian Theology (1874). Ele apresenta uma descrição detalhadamente protestante da teologia arminiana, que não deixa dúvidas acerca de seu compromisso com a teologia reformada, incluindo a salvação pela graça por meio da fé somente.

10. Um dos teólogos arminianos mais controversos do século XIX foi o sistematicista metodista John Miley (1813-1895), cuja Systematic Theology levou B.B. Warfield, teólogo calvinista de Princeton, a publicar um extenso ataque. Miley apresentou uma tendência ligeiramente liberalizante na teologia arminiana wesleyana. Embora tenha alterado algumas posições arminianas tradicionais em uma direção mais moderna, Miley permaneceu um arminiano evangélico. De algumas formas, ele representa uma ponte entre o arminianismo evangélico e o ortodoxo (Armínio, Wesley, Watson, Pope e Summers).

11. Charles Finney (1792-1875) vulgarizou a teologia arminiana ao negar algo que Armínio, Wesley e todos os arminianos fieis que lhe antecederam haviam afirmado e protegido. Estes afirmaram a depravação total herdada, como a total incapacidade independente de um despertamento sobrenatural, despertamento este chamado de graça preveniente. Mas Finney negava a necessidade da graça preveniente. Para ele, razão, desenvolvida pelo Espírito Santo, faz com que o coração se volte para Deus. Ele chamou a doutrina arminiana clássica da habilidade graciosa (habilidade de exercer uma boa vontade para com Deus outorgado pelo Espírito Santo através da graça preveniente) de um “absurdo”.

12. O século XX testemunhou o fim do sinergismo evangélico entre as principais denominações, incluindo o Metodismo, na medida em que caíram na teologia liberal. O arminianismo absolutamente não conduz ao liberalismo, e isso está provado pelo crescimento das formas conservadoras do arminianismo entre os Nazarenos, pentecostais, batistas, igrejas de Cristo e outros grupos evangélicos. Todavia, muitos destes arminianos do século XX negligenciam ou mesmo rejeitam o rótulo de arminiano por uma variedade de razões, não sendo uma das menos importantes o sucesso dos calvinistas em definir o arminianismo de acordo com a teologia de Finney, que era considerado como modelo de um verdadeiro arminiano.

13. H. Orton Wiley (1877-1961), líder da igreja do Nazareno, que escreveu a obra Christian Theology de três volumes e um resumo de um volume da doutrina cristã, manteve o rótulo arminiano. O arminianismo de Wiley é uma forma particularmente pura do arminianismo clássico com o acréscimo do perfeccionismo wesleyano (que nem todos os arminianos aceitam). Toda bondade, incluindo as primeiras inclinações do coração para com Deus, é atribuída unicamente à graça de Deus. Como Watson, Summers, Pope e Miley, Wiley insiste em uma diferença entre semipelagianismo e o verdadeiro arminianismo.  

14. Outro teólogo arminiano do século XX é o metodista evangélico Thomas Oden. A sua obra The Transforming Power of Grace (1993) é uma pedra preciosa da soteriologia arminiana. Mas o próprio Oden não se considera como arminiano.

15. Outros teólogos arminianos do século XX (alguns dos quais não querem ser chamados de arminianos) são os batistas Dale Moody, Stanley Grenz, Clark Pinnock e H. leroy Forlines, Jack Cotrell e os metodistas I. Howard Marshall e Jerry Walls.

Uma das dúvidas que está ligada com essa definição dos remonstrantes é se os arminianos são seguidores críticos de Calvino ou se eles são um desvio do Calvinismo; Eles fazem parte do grande movimento do protestantismo, como os Luteranos, ou devem ser considerados como heréticos, como os pelagianos e semipelagianos? Na próxima postagem, eu planejo escrever um pouco mais acerca disso.

Livro de referência: OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Reflexão, 2013.

Acesse a página do projeto Dordt-Brasil:http://canonesdedort.com/

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

UMA ESPIADINHA NO LIVRO A SUBSCRIÇÃO CONFESSIONAL - DR. ULISSES HORTASIMÕES (parte 2)


A Subscrição Confessional: necessidade, relevância, e extensão
Ulisses Horta Simões 
Belo Horizonte: Epafra, 2002.

A RELEVÂNCIA CONFESSIONAL E A SUBSCRIÇÃO 
Lucio Mauro

Tendo apresentado a necessidade de documentos que resumam a fé bíblica, os credos, no passado, e as confissões, desde à Reforma, Dr. Ulisses introduz, nesta parte do livro, a análise da prática de submeter os candidatos a ofícios na igreja a algum tipo de subscrição confessional. 

Confissão e Identidade Confessional. O autor apresenta três categorias de documentos confessionais ao tratar deste assunto: Luteranos, Reformados e Evangélicos, este último constitui um grupo de documentos heterogêneos. Com a morte de Lutero, os luteranos enfrentaram longos conflitos internos tentando resolvê-los com a Fórmula de Concórdia. Ali ficou notório a divergência quanto à subscrição; o próprio Melanchton, um sucessor de Lutero, na sua busca por uma abertura que possibilitasse reavaliar a verdade, negou abertamente a subscrição. O comportamento dogmático presente nos documentos luteranos apresentava uma fé preguiçosa. E como consequência, despertou não apenas o Pietismo, com sua aversão completa ao confessionalismo, sem considerar seu valor na igreja e nos exercícios dos ofícios, mas também o liberalismo teológico e o pensamento existencialista.

Entre os Evangélicos existia uma tendência marcante de adotar algum tipo de subscrição restrita, ou mesmo de negar qualquer atitude em direção a uma subscrição plena. Nessa lista aparecem os Anabatistas, Anglicanos, Metodistas, Liberais.

Posição Reformada Sobre a Questão. Por ter sido mais abrangente do que a reforma 
luterana, as confissões reformadas foram também mais numerosas. A obrigatoriedade de subscrição de documentos que iam sendo aceitos como expressão de fé em determinada região, identificava bem a tradição calvinista. O livro cita então, duas das grandes assembleias eclesiásticas. 
O Sínodo de Dort, que se reuniu entre os anos de 1618 e 1619, promulgou as Três Formas de Unidade – A Confissão de Fé (também conhecida como Confissão Belga, por ter sido escrita na cidade belga de Mons), o Catecismo de Heidelberg (confeccionado a mando do príncipe alemão Frederico III) e Os Cânones de Dort (que foi uma resposta deste Sínodo aos cinco pontos levantados pelos arminianos), e as igrejas ali representadas exigiram de seus oficiais a subscrição destes documentos.

A Assembleia de Westminster, seguindo o mesmo caminho, promulgou a Confissão de Fé de Westminster, o Catecismo Maior e Menor de Westminster, o Diretório de Culto e o Livro de Ordem, alem de outros documentos menores. Muito embora, esta Assembleia reconhecesse que estes documentos são limitados, e, portanto, não são concorrentes das Escrituras, o apreço pela confessionalidade aumentava e cada vez mais aumentava também a diferença entre reformados e romanistas.

Na Inglaterra não houve consenso quanto a subscrição destes documentos, sendo esta questão submetida ao parlamento da época. O parlamento parece não ter chegado a um consenso pela subscrição, ou não conseguiu a adesão de sua maioria. Já no caso da Escócia, confissões não apenas foram aceitas como também se tornou obrigatória a sua subscrição. Outras denominações, não apenas na Europa, mas também nos Estados Unidos e no Brasil, assumiram posição semelhante. 

Confissão, subscrição, e ofícios eclesiásticos. A relação entre a subscrição e os ofícios. Usando a analogia dos partidos políticos, onde a imaturidade é a razão da pluralidade de pensamentos, opinou Calvino: "pois muito maior autoridade terá a determinação conveniada em comum pelos pastores das igrejas, depois de invocar o Espírito de Cristo, do que se cada um ensinasse ao povo por sua iniciativa particular".

Dr. Ulisses concorda com a necessidade de preservar a unidade do ensino e até de disciplinar com amor, mas com rigor, àqueles que descumprem seus votos de subscrição. Ele segue reconhecendo que somente a Bíblia é a norma que normatiza, a norma suprema, mas a confissão não deixa de ter um valor normativo, ainda que esteja subordinada à Bíblia. O caminho contrário não foi tomado apenas pelos Anabatistas e Pietistas, mas é tomado por liberais modernos. Longe de cair no erro romano de considerar o Papa infalível, não se pode deixar de manter firme a Confissão de Fé. A atitude das igrejas reformadas de exigirem a subscrição de seus oficiais é elogiado por Dr. Ulisses  “Uma agradável e ecumênica convivência fraternal na multiplicidade de interpretações? Jamais!”.

Dois pontos que são igualmente reprováveis, mas que seguem o espírito do ecumenismo moderno: o fato de ter uma Confissão que apresente os artigos com pouca clareza, torna uma denominação desonesta; enquanto que, do outro lado, o oficial que em aberta falta de sinceridade, subscrevem o que não confessam é igualmente desonesto. Então, requerer de seus oficiais que subscrevam as confissões não significa exclusivismo, nem arrogância, desde que não se proponha a julgar os outros ramos.


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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

UMA ESPIADINHA NO LIVRO A SUBSCRIÇÃO CONFESSIONAL - DR. ULISSES HORTA SIMÕES (parte 1)

A Subscrição Confessional: necessidade, relevância, e extensão
Ulisses Horta Simões 
Belo Horizonte: Epafra, 2002.

IDENTIFICANDO PONTOS IMPORTANTES ABORDADOS NO LIVRO
Por Lucio Mauro

Eu gostaria de me aproveitar do livro A Subscrição Confessional do Dr. Ulisses para destacar algumas valiosas informações sobre o processo de desenvolvimento dos documento confessionais no ceio do cristianismo. Tais documentos visavam entre outras coisas proteger a tradição apostólica, mantendo o verdadeiro conhecimento da vontade de Deus revelada nas Sagradas Escrituras. Neste livro você vai aprender também como as igrejas consideradas confessionais assumem o compromisso de subscrever algum tipo de documento que expresse o padrão de fé da comunidade. Apesar disso, por razões variadas, muitos ministros e outros oficiais tem subscrito tais documentos de maneira parcial e, às vezes, duvidosa.  

PARTE 1 

NECESSIDADE DAS FORMULAÇÕES PROTOCREDAIS
Com a morte dos apóstolos, as controvérsias no ceio do cristianismo só aumentaram: a autenticidade dos livros do Novo Testamento, a preservação do ensino apostólico contra o aumento da diversidade de concepções somente para citar alguns dos desafios enfrentados pela igreja. Tantos foram os motivos que levaram alguns dos Pais da Igreja, como Inácio, Bispo de Antioquia; Irineu, Bispo de Lião; Tertuliano, Bispo de Cartago; a desenvolverem resumos de fé, “na instrução, nas exortações, e acima de tudo na oposição às doutrinas errôneas e aberrações morais” (p. 21). Estas Formulações ProtoCredais, ou seja, os documentos produzidos no período entre os apóstolos e o Concílio Niceno, e que serviram aos propósitos acima mencionados, tinham caráter congregacional, mas lançaram as bases para os credos como o que foi produzido no Concílio de Nicéia. 

A Necessidade dos Credos. Com o passar do tempo, as controvérsias ganharam contornos cada vez mais amplo, e uma solução geral era cada vez mais necessária. É assim que, em 325, o primeiro concílio ecumênico, Nicéia, – historicamente reconhecido como universal – foi convocado para por fim ao conflito representado pelos bispos Ário e Atanásio, que estava ameaçando a unidade do império, já que o oriente tendia ao lado de Ário, enquanto Atanásio contava com o apoio do ocidente. O princípio subordinacionista defendido por Ário ameaçava a eterna divindade de Cristo. Atanásio, e depois deles os três capadocianos lutaram sem descanso para manter a ortodoxia. O Concílio de Constantinopla, 381, com poucos acréscimos, reafirmou a posição de Nicéia, definindo a questão trinitária. Em 431, no Concílio de Éfeso, foi tratado o assunto das duas naturezas de Cristo; e em Calcedônia (451), o assunto foi definido com a declaração de que as duas naturezas, divina e humana, estavam unidas na pessoa de Cristo. 

O Credo Apostólico.  Este credo, ao que se sabe, não se originou nos apóstolos, como postulou Tyrannius Rufinus (p. 37) que no século IV chegou ao estremo de afirmar que cada apóstolo tinha legado um dos doze artigos deste credo. 
O Credo Apostólico está dividido em três partes: o Pai e a obra da criação, o Filho e a obra da redenção, o Espírito Santo e a obra de santificação. O fato que a igreja oriental, como Ulisses mostra citando o Concílio de Florença (p. 37), não o reconhece como padrão da igreja e o fato do credo nunca ter sido mencionado pelos Pais antes de Nicéia, servem como fortes evidências de que ele, apesar de sua larga aceitação, não teve sua origem entre os apóstolos. Nada obstante, o conteúdo do Credo Apostólico é perfeitamente apostólico, merecendo o título que ostenta. 

A Necessidade das Confissões. Existe uma necessidade de documentos que servem de padrão de fé às igrejas, como foi verificado na igreja antiga, mas também e de maneira mais específica, no período da Reforma Protestante. No século XVI, a igreja romana enfrentava o fantasma da Reforma dentro de suas próprias paredes, quando o monge agostiniano, Martinho Lutero, expôs suas 95 teses. Muitas cidades, aderindo a Reforma, desenvolviam suas próprias confissões. Por conseguinte, o cristianismo trocava a fase dos Credos que marcou a idade média, pela das Confissões. Esta nova forma de apresentar um resumo da fé cristã, era explicitamente apologética.
Veremos sobre isso na próxima postagem

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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

É CORRETO TER CREDOS E CONFISSÕES NA IGREJA?

Quais os motivos para adotarmos credos e confissões?
Por Pr. Flávio Silva

Antes de qualquer coisa, há uma base bíblica para se ter confissões? Sim, há. Há confissões de fé encontradas na própria Bíblia. O grande exemplo do Antigo Testamento é Deuteronômio 6:4: "Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus, é o único SENHOR." Esta tem sido uma confissão de fé e é, ainda hoje, tanto para judeus e cristãos.

Encontramos declarações confessionais no Novo Testamento também. Por exemplo, temos Efésios 4:4-6, "Há um só corpo, um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos...." Em Mateus 10, o Senhor Jesus nos encoraja a confessá-lo diante dos homens. Isso requer palavras e a igreja tomou as palavras da Escritura e as resumiu com suas próprias palavras.

Em nossos dias, vemos aqueles que dizem que “não devemos ter nenhum credo e confissão, mas Cristo". Essas palavras soam bastante piedosas. Mas a realidade é que todo mundo tem um sistema de crença por trás do que eles dizem, quer escrevam ou não. Por exemplo, se você for a uma dessas igrejas onde dizem que não tem credos e confissões, pergunte-lhes se batizam seus filhos pequenos, eles provavelmente dirão: "Não, nós não acreditamos que o batismo infantil é correto." Ao dizer isso, eles mostram que eles de fato têm um sistema de crenças em que eles acreditam. Todo mundo tem um sistema de crenças, é inevitável, a diferença é que nas igrejas confessionais, nós anotamos e confessamos para que todos saibam no que nós acreditamos.

Qual primeiro motivo para termos credos e confissões? Para que as pessoas saibam no que cremos. Não é um segredo. Então, temos um resumo útil dos importantes ensinamentos da Bíblia.

Segundo, nós os usamos para instruir nossos filhos e a nós até mesmos sobre os princípios ensinados na Bíblia. Na igreja da qual sou ministro da Palavra, temos aulas de catecismo, onde as confissões são usadas como direcionamento dos ensinamentos bíblicos. Além disso, temos a cada domingo pregação sobre o catecismo para toda a congregação. Não é que os credos e confissões tomam o lugar das Escrituras, mas que eles são usados como guias para o que a Bíblia ensina. Credos e confissões são úteis para conduzir o caminho, dar direção.

Terceiro, nossos credos e confissões também são úteis para manter os falsos ensinos distantes. O Credo Niceno e o Credo Atanasiano, por exemplo, foram elaborados em resposta aos falsos ensinamentos sobre as doutrinas da Trindade e da pessoa de Cristo. Os Cânones de Dort foram elaborados em resposta aos falsos ensinamentos sobre a soberania de Deus em nossa salvação. Ministros da palavra, presbíteros e diáconos devem subscrever os credos e confissões.

Livro Recomendado A Subscrição Confessional - Ulisses Horta Simões
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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Livro: Cuidando da igreja: o ofício de presbítero - um manual comentado

Livro: Cuidando da igreja: o ofício de presbítero - um manual comentado

Assista ao vídeo promocional http://youtu.be/e7hzhFqStCU
https://www.facebook.com/livrosreformados/posts/1690343807851307

Cornelis Trimp foi pastor das Igrejas Reformadas Libertadas da Holanda. Estudou e lecionou em várias cadeiras na Universidade de Campen (Holanda). Foi um dos editores da revista Reformata, revista de grande influência nos Países Baixos. Escreveu vários livros, e agora a CLIREF (Comissão de Literatura Reformada) tem a alegria de colocar à disposição do leitor de Língua Portuguesa o primeiro deles Cuidando da Igreja: O ofício de presbítero - um manual comentado. Este livro, na verdade, é o volume 1 de uma obra que inclui o volume 2 O ofício de Diácono - um manual comentado, que esperamos lançar em breve. 

O autor deste livro oferece uma revitalização do ofício de presbítero baseado na Palavra de Deus. Ele apresenta os presbíteros como pastores da igreja, que têm um papel importantíssimo ao lado do Ministro da Palavra. Juntos são chamados a pastorear o rebanho de Cristo.

O livro reflete a vasta experiência do autor no treinamento de líderes e seu amplo conhecimento como professor da Universidade de Campen.  O autor faleceu em 2012.



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

ERROS OU HERESIAS SÃO REFUTADOS NOS CÂNONES DE DORT?

O Sínodo de Dordt (1618/19) considerou a doutrina dos arminianos como um erro ou como uma heresia?
Alguém me fez esta pergunta recentemente. Posso imaginar por que ele me perguntou isso, porque várias edições dos Cânones de Dordt em português falam sobre a “refutação dos erros” (grifo meu). ​A palavra “erro” significa segundo o dicionarista Sacconi, “Qualquer desacerto praticado por desconhecimento, inaptidão ou ignorância; uma falha evitável; uma falta leve”. Uma pessoa pode cometer um erro, mas quando ela descobre isso, ele se desculpará e procura corrigi-lo
​Uma “heresia” é um erro que se repete e que não é praticado por desconhecimento ou ignorância, mas de propósito, porque a pessoa que cometeu o erro tem uma outra opinião ou outra interpretação das Sagradas Escrituras. Segundo Sacconi, heresia é “Opinião ou doutrina que diverge daquela estabelecida pelas crenças religiosas”.
​A Ata do Sínodo de Dordt escrita em Holandês fala sobre “De verwerping der dwalingen”. A palavra holandesa “dwaling” indica uma heresia com o mesmo sentido descrito por Sacconi: “Opinião ou doutrina que diverge daquela estabelecida pelas crenças religiosas”.  Mas o dicionário padrão Holandês – Português diz que devemos traduzi-la pela palavra “erro”, o que é, a meu ver,  um erro. Vou explicar isso.
​Em primeiro lugar quero apontar para a pré-história do Sínodo de Dordt. A discussão sobre a predestinação, a graça irresistível e o livre arbítrio não foi uma coisa isolada, mas já estava sendo feita por muitos anos. Inicialmente entre Francisco Gomarus e Jacó Armínio, e depois entre os alunos de Armínio, os quais apresentaram a “Remonstrância” e um grupo de pastores das Igrejas Reformadas, os quais apresentaram a “Contra-Remonstrância”. Na  introdução dessa “Contra-Remonstrância” , os pastores reformados apontam em primeiro lugar que os Remonstrantes (= Arminianos) não concordam com as Confissões das Igrejas Reformadas e procuram uma revisão das mesmas; em segundo lugar, que eles querem uma revisão das Confissões, mas não querem dizer publicamente em quais pontos eles não concordam; em terceiro lugar, que os Remonstrantes sugeriram que as confissões não contêm a sã doutrina das Sagradas Escrituras; em quarto lugar, que eles apresentaram uma “Remonstrância” que não é muito clara e tem muitas expressões equívocas;  em quinto lugar, que os Remonstrantes insinuam erradamente que os pastores pregam doutrinas que não são de acordo com as Escrituras. No final, antes de apresentarem a sua “Contra-Remonstrância” os pastores reformados disseram: Em nossas igrejas se prega assim (e seguem os 7 pontos da Contra-Remonstrância).
A questão não é sobre alguns erros que foram cometidos, mas tanto do lado dos arminianos como também dos Calvinistas, a questão era uma questão de doutrinas erradas. Ambos acusaram os oponentes de cometerem heresia e não de um erro cometido por desconhecimento ou ignorância.  Os dois partidos conheciam muito bem a sua própria doutrina e a doutrina dos oponentes. Isso ficou mais claro ainda em 1613, quando ambos os partidos fizeram um documento em conjunto que explicava quais eram as divergências entre os dois.
​Em segundo lugar devemos observar o caráter do Sínodo. O Sínodo de Dordt foi um Sínodo internacional. Muitos delegados das igrejas reformadas no exterior foram convidados para participar e expor as suas opiniões a respeito das questões e princípios que estavam em jogo. Então, a questão não foi uma questão leve a respeito de algumas faltas leves. A doutrina das Sagradas Escrituras, que estava resumida nas confissões das Igrejas Reformadas, estava em jogo. Por causa disso, todas as igrejas tanto no interior como também no exterior foram convidadas. As igrejas não iriam mandar seus delegados se a questão não fosse importante.
​Em terceiro lugar, vemos o seguinte: o Sínodo tratou a questão dos Remonstrantes na sessão 137 e ali está escrito em latim (cito o Latim, porque a tradução do holandês para o português pode causar confusão. Veja acima): “Absolutis hunc in modum iis quae spectarent ad doctrinam, praelecta est iudicii synodici de Remonstrantium formula; eorum inprimis, qui ad hanc synodum citati contumaciae crimine se toties obstrinxerant. Qua de re audita sunt iudicia” (em português: Sendo concluídas as discussões a respeito da doutrina, foi lida a forma das sentenças feita pelos delegados do Sínodo a respeito dos remonstrantes, quer dizer: daqueles que foram convidados por causa do crime da obstinada insubordinação deles (grifo meu). Então, não foi por causa de um erro, de uma falta leve, mas por uma insubordinação contra a doutrina da igreja.
​Em quarto lugar, temos que observar a estrutura dos Cânones de Dordt.  Os Cânones de Dordt tem 5 capítulos. Cada capítulo apresenta primeiramente a sã doutrina e depois segue uma parte em que se rejeita os “erros” ou heresias dos arminianos. Antes de mencionar essas heresias, o Sínodo diz: “Havendo explicado a doutrina ortodoxa, o Sínodo rejeita os seguintes erros” (de acordo com a edição de Cultura Cristã). A doutrina ortodoxa está em contraste com os “erros” dos Remonstrantes. Isso indica que os “erros” não são acidentais e leves, mas são “erros” de doutrina, que não são de acordo com a sã doutrina da igreja.
​Em quinto lugar, analisemos o seguinte: Se os “erros” dos Remonstrantes eram pequenos pontos de discussão que estavam dentro dos parâmetros da doutrina reformada daquela época, as igrejas não precisavam de um Sínodo para julgar os “erros” deles. Mas a Conclusão do Sínodo ao final dos Cânones diz que “há muitas outras coisas semelhantes que as Igrejas Reformadas não apenas não confessam, mas também repelem de todo coração” (grifo meu). E em outro lugar se diz: “Além do mais, o Sínodo adverte os caluniosos para que considerem o severo julgamento de Deus à espera deles, por falar falso testemunho contra tantas igrejas e contra as Confissões delas, e por conturbar as consciências dos fracos e por tentar colocar em suspeito, aos olhos de muitos, a comunidade dos verdadeiros crentes” (grifo meu).  O Sínodo não usaria tais palavras sérias, se somente se tratava de pequenos “erros”.
​Em sexto lugar, faz-se necessário lembrar que os arminianos não participavam no Sínodo como delegados (o que eles queriam!) mas como citados. O Sínodo os convocou, mas a posição deles durante as reuniões era a posição dos réus. O Sínodo se reuniu para avaliar e analisar a doutrina deles de acordo com as doutrinas das Escrituras que foram resumidas nas Confissões das Igrejas Reformadas.
​Em sétimo e último lugar, devemos lembrar que os remonstrantes que foram citados, foram suspensos pelas igrejas. Isso só acontecia quando alguém cometia pecados públicos ou pregava doutrinas falsas. Mais do que duzentos pastores foram depostos. Uma grande parte voltou após a subscrição das Confissões e depois de ter feito a promessa de não ensinar nada que era contra a doutrina bíblica das Confissões. Tudo isso não faz sentido se o Sínodo só tratou alguns “erros”, que foram cometidos.

Abram de Graaf é holandês, “Doctorandus” (Drs) em Teologia e um dos professores do Instituto João Calvino (Aldeia, Camaragibe-PE). Ele é pastor da Igreja Reformada de Hamilton, Canadá, enviado como missionário às Igrejas Reformadas do Brasil, desde o ano 2000. Ele mora em Maceió e também desenvolve projetos nessa cidade.


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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

As 95 Teses de Lutero - mais de 50% das pessoas que dizem que as conhecem, nunca as leram


Uma pesquisa que eu mesmo fiz, conversando com amigos e pessoas que interagem com as páginas da internet que ajudo a administrar, responderam que conheciam as 95 teses de Lutero, mas nunca chegaram a lê-las.
Não me surpreenderia se você que está lendo esta postagem, fornecesse a mesma resposta da maioria. O fato é que, mesmo na era do Google, muita gente não pesquisa aquilo que elas pensam que já sabem. Por esta razão, o número de pessoas que leem apenas manchetes cresce assustadoramente. 
Informações importantes precisam ser lidas pelo menos uma vez na vida. Então, se ainda não leu as 95 teses de Lutero. Reserve dez minutos do seu tempo e mude de lado, nessa pesquisa. 

95 TESES DE LUTERO
1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.
4. Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.
5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações, a culpa permaneceria.
7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.
8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.
9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.
10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.
11. Essa cizânia de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.
13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.
14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais quanto menor for o amor.
15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.
16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semi-desespero e a segurança.
17. Parece necessário, para as almas no purgatório, que o horror devesse diminuir à medida que o amor crescesse.
18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.
20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.
25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.
26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.
27. Pregam doutrina mundana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.
29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas, como na história contada a respeito de São Severino e São Pascoal?
30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.
31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Ele.
34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.
35. Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter redenção ou indulgência, estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.
36. Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.
37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser desprezado, pois – como disse – é uma declaração da remissão divina[2].
39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar simultaneamente perante o povo a liberalidade de indulgências e a verdadeira contrição.[3]
40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, ou pelo menos dá ocasião para tanto.[4]
41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.[5]
42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.
43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.[6]
44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.
47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.
48. Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o papa tem mais desejo (assim como tem mais necessidade) de oração devota em seu favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.
49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.
52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.
53. São inimigos de Cristo e do Papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.
54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.
55. A atitude do Papa necessariamente é: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.
56. Os tesouros da Igreja, a partir dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.
57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.
58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.
59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.
60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem estes tesouros.
61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos especiais, o poder do papa por si só é suficiente.
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63. Mas este tesouro é certamente o mais odiado, pois faz com que os primeiros sejam os últimos.
64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é certamente o mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.
65. Portanto, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tais, na medida em que dão boa renda.
68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbidos pelo papa.
71. Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.
72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,
74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram fraudar a santa caridade e verdade.
75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes a ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.
76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados venais no que se refere à sua culpa.
77. A afirmação de que nem mesmo São Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o Papa.
78. Dizemos contra isto que qualquer papa, mesmo São Pedro, tem maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as virtudes, as graças da administração (ou da cura), etc., como está escrito em I.Coríntios XII.
79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insigneamente erguida, equivale à cruz de Cristo.
80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes sermões sejam difundidos entre o povo.
81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil nem para os homens doutos defender a dignidade do papa contra calúnias ou questões, sem dúvida argutas, dos leigos.
82. Por exemplo: Por que o papa não esvazia o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas –, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?
83. Do mesmo modo: Por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?
84. Do mesmo modo: Que nova piedade de Deus e do papa é essa que, por causa do dinheiro, permite ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, mas não a redime por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta por amor gratuito?
85. Do mesmo modo: Por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?
86. Do mesmo modo: Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma Basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos próprios fiéis?
87. Do mesmo modo: O que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à plena remissão e participação?
88. Do mesmo modo: Que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações cem vezes ao dia a qualquer dos fiéis?
89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências, outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?
90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos infelizes.
91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92. Portanto, fora com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo "Paz, paz!" sem que haja paz!
93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz!
94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, sua cabeça, através das penas, da morte e do inferno.
95. E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Lutero, o Reformador músico


Lutero, o Reformador músico 
Lucio Mauro

Antiguidade da música sacra 
Ao longo da história medieval a Igreja Romana havia limitado o cântico, na igreja, aos clérigos, e as músicas eram cantadas em Latim. Nas missas, restava ao povo ouvir e admirar a riqueza dos cânticos (às vezes, os cânticos não passavam de sussurros dos monges, que os tornavam, incompreensíveis até mesmo aos experientes).

Os Entusiastas
Na época da Reforma Protestante, um movimento chamado "Entusiastas" (Tomás Munster, que liderou os camponeses em Turíngia, mas foi derrotado com seu exército e punido com a morte por decapitação, em 27 de maio de 1525, foi um entusiasta) não apenas desafiava a igreja no campo da doutrina e da prática cristã, mas também no campo da hinologia. Apesar disso, o grande apreço desse movimento pelos Salmos contribuiu para que a Palavra de Deus fosse colocada na boca do povo. 

A música na vida do Reformador alemão 
Lutero cresceu cercado de música. Desde os primeiros anos de estudos na escola de Mansfeld, e mais decisivamente, na universidade de Erfurt, onde Lutero aprendera o cântico gregoriano, e mais tarde, estudando teologia com os agostinianos, aliou-se definitivamente à devoção destes monges com a música. Vale lembrar que à época, a formação mais qualificada se dava por meio das artes liberais, com seu conteúdo proposto pelo Imperador Carlos V: gramática, lógica, dialética, aritmética, geometria, astronomia e música. Lutero aprendeu a tocar vários instrumentos musicais, mas o seu preferido era o Alaúde (instrumento de corda) do qual se diz que ele teria levado consigo na viagem a Worms (ocasião em que aconteceu a Dieta quando Lutero foi chamado a explicar suas opiniões diante do Imperador Carlos V). 

Lutero e a música secular 
Lutero não aprovava apenas os cânticos que eram cantados nas igrejas, mas também músicas consideradas seculares. Ele chegou a lamentar que houvesse tanta coisa ruim em músicas sacras enquanto que se podia achar tanta coisa boa entre as músicas seculares. Até mesmo as músicas apropriadas para dança eram bem vistas por Lutero, embora ele mesmo não tivesse o hábito da dança (ao contrário do amigo Melanchton).  

Lutero e a música na igreja
Apesar disso, Lutero pode ser considerado conservador em relação à música. Ele não fez uso de músicas contemporâneas até a adoção da Missa Alemã (1523), mantendo até lá o cântico gregoriano e músicas tradicionais da Missa Latina. Quando a igreja alemã adotou cânticos contemporâneos, Lutero mesmo tratou de fazer as modificações necessárias de acordo com sua teologia, o que ele já havia feito com as músicas da Missa Latina.

Lutero, o Pai do cântico congregacional
Lutero não entendia que somente os Salmos deviam ser cantados no culto, mas a música, como uma arte, pertencia a Deus. Ele não concordava com a limitação do cântico aos monges, mas queria ver a música servindo na adoração pública, e para ensinar o povo as verdades bíblicas e principais doutrinas da igreja. Para isso, procurava por profissionais que pudessem servir com seus talentos para trazer hinos ao nível de acessecibilidade e compreensão dos mais simples. Até mesmo os corais nas igrejas não eram apresentações separaras da congregação, mas deviam servir para ajudar o povo na adoração.
O mesmo cuidado que Lutero tinha ao fazer a tradução da Bíblia para o Alemão, de maneira a manter a linguagem acessível ao povo, ele mantinha igualmente na tradução e adaptação de certos hinos em Latim para o Alemão. A escolha de palavras, o cuidado com a estrutura das frases serviam para tocar o povo tanto com a impressão como com a expressão da música. 

Beleza musical 
A classificação da música como arte está relacionado com a estética artística característica do período medieval, da qual Lutero fez amplo uso nos arranjos das melodias que desenvolveu, bem como na beleza estilística das palavras e rimas. Assim, o canto gregoriano, marcado por uma linha rítmica deu lugar  as múltiplas linhas rítmicas, como acontecia nos corais. A melodia tranquila contribuía para maior reflexão e, consequentemente, para a edificação dos fiéis. Lutero também esperava que o envolvimento, especialmente dos jovens, com os corais os livrasse das músicas más tão populares nas tabernas, em toda Alemanha.

Renovação musical da igreja
Algumas pessoas queriam uma mudança abrupta na adoração pública, mas Lutero se diferenciou de seus colegas (Melanchton e Karlstadt, por exemplo), nesse ponto, pois entendia que as mudanças no culto deviam ser gradativas, levando-se em conta a capacidade dos fiéis de assimilar as modificações. Música com impressão (sensibilidade emocional) e expressão (apelo à compreensão da mensagem transmitida) deviam ser adotadas paulatinamente e com o devido cuidado profissional. Por isso, Lutero insistia que os hinos fosse publicados sempre com suas notas musicais.

Hinos de Lutero
Um número muito grande de hinos chega a ser indicado como sendo de autoria do Reformador. Alguns falaram em 137 hinos, mas isso pode ser um exagero. Apesar disso, estima-se que acima de 30 hinos de Lutero podem ter sido preservados e podem ser encontrados nos diversos horários em língua portuguesa.  
O tempo que passou no castelo de Warburt, debaixo da proteção do Príncipe Frederico, da Saxônia, não serviu apenas à tradução dos textos sagrados gregos e hebraicos (além da usual Vulgata Latina) para o idioma Alemão, mas também para escrever cartas à várias pessoas amigas, a cantar e tocar seus instrumentos (flauta, alaúde) e a compor seus primeiros hinos. O primeiro deles talvez tenha sido: "Um belo hino dos mártires de Cristo queimados em Bruxelas pelos sofistas de Lovaina", em 1523. Esse hino celebra a morte de dois monges que estavam acompanhando de perto os ensinos de Lutero e foram por isso queimados, em praça pública. Lutero reagiu ao acontecimento escrevendo cartas aos cristãos dos Países Baixos e compondo o hino em honra a estes a quem considerou "mártires". No ano seguinte, foi publicado sua tradução dos Salmos e um Hinário Espiritual contendo 32 hinos (alemãs e latinos). 

Primeiro hinário 
Até então, os hinos circulavam separadamente. O termo "Hinário" para se referir ao conjunto dos hinos destinados ao culto cristão, todavia só se tornou popular a partir do século XVIII. No entanto, o Hinário de Wittemberg, com 32 hinos, pode ser considerado um dos primeiros hinários,  publicado em 1524.
O Pai Nosso foi musicado por Lutero, pela primeira vez em 1539. "A melodia, de 1530, é de Johanes Walter, compositor e parceiro de Lutero na organização de vários hinários, como o de Wittenberg "
       
Hino "Castelo forte (ou Fortaleza Poderosa) é Nosso Deus" (O hino Ein feste Burg ist unser Gott)
Este cântico tão popular de Lutero é considerado o Hino de Batalha da Reforma Protestante devido ao efeito produzido no apoio à causa dos Reformadores. A teoria mais popular é a que diz que Lutero teria composto este hino enquanto lia o Salmo 46, preparando-se para comparecer à Dieta de Worms (1521). Essa posição é citada por John Julian, entre outras três que listou. Citando Heinrich Heine, Julian diz que "Castelo Forte" teria sido cantado por Martinho Lutero e seus companheiros, quando entraram em Worms, em 16 de abril de 1521, para a Dieta (Reforma21).

No entanto, evidências apontam que o registro mais antigo deste hino só aparece no Hinário Espiritual de 1524, enquanto que o hino "Um belo hino dos mártires de Cristo queimados em Bruxelas pelos sofistas de Lovaina" tem apoio em uma data anterior, 1523. No entanto, em ambos caso, pode ter acontecido uma composição e até uso do hino em uma data anterior ao seu registro ou publicação. Desta forma, a questão não fica definida.


Livro texto:
Lutero, Martinho. Obras Selecionadas: comunidade, Ministério, culto, sacramentos, visitação, catecismos, hinos. São Leopoldo: Comissão Interluterana de Literatura, 2000, p. 470-573. 

Leia Mais:
http://www3.est.edu.br/biblioteca/btd/Textos/Mest_Prof/Trentini_ma_tmp09.pdf
http://reforma21.org/blog/castelo-forte-e-nosso-deus.html
http://www.cih.uem.br/anais/2011/trabalhos/326.pdf
http://dev.vethia.com.br/wordpress/chhm/wp-content/uploads/2015/06/Martinho-Lutero-e-os-usos-da-musica-O-passa-do-ainda-canta-Suenia-Barbosa-de-Almeida.pdf


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Qual é o nome da minha Igreja?


Qual é o nome da minha Igreja? 

Este texto foi publicado originalmente como um comentário do seminarista Iraldo Luna em uma postagem do Facebook com o título "Qual é o nome da minha Igreja?" De autoria do pastor Kenneth Wieske. O documento é público, mas recebemos autorização para reposta-lo no blog.

Faz algum tempo que venho refletindo sobre este assunto tão importante para nossa vida eclesiástica. De fato, hoje a minha igreja (a igreja onde sou um membro) está numa situação eclesiástica nacional que requer de nós muita reflexão acerca do que somos como igreja, e isso repousa principalmente sobre o que entendemos o ser igreja. Muitos perigos nos cercam quando o assunto é igreja e o uso de seu nome. O poder do denominacionalismo sem dúvida é muito forte nas igrejas e no pensamento e vida dos cristãos (verdadeiros inclusive). 

Muitas igrejas evangélicas funcionam como um império, no qual se senta para governa o seu "imperador", ou melhor, "papa", ao qual todos os súditos (igrejas e indivíduos) devem se submeter, e dele esperar as decisões canônicas. Já outras perderam sua identidade de igreja de Cristo para uma marca eclesiástica, como se a igreja fosse uma marca que se espalha pelo nosso país. Isso certamente é uma ameaça ao poder e à identidade da igreja local, que, assim, foi instituída pelo próprio Cristo, que a governa por meio dos presbíteros.

Logo, isso nos leva a pensar sim acerca do modo como usamos o nome da igreja. Contudo, uma regra básica, como bem sabemos, é que em primeiro lugar a Escritura fala e depois vêm as nossas preocupações. As Escrituras sim são o juiz supremo de toda discussão e disputa e a nossa única regra de fé e prática, não as nossas tradições e preocupações com a pureza da igreja (quando essa ordem é trocada, a igreja cai, e assim repousa, nas mãos das regras e leis dos homens.

A própria Bíblia se refere à igreja de Cristo numa certa região usando o singular. De fato, é verdadeiro que, na maioria dos casos, a referência é ao plural. Mas isso, ao meu ver, não nos autoriza a estabelecer uma verdade "absoluta" acerca desta questão. Seria forte de mais dizer que devemos praticar algo, considerando o diferente com incorreto, apenas com base no "normalmente". Podemos dar outros exemplos e isso não seria suficiente para estabelecer uma regra. É o caso do modo como a Escritura chama o que chamamos de ministros da Palavra. NORMALMENTE, a Bíblia se refere a estes como bispos ou presbíteros. Se nós considerarmos que textos como 1 Tm. 3; 5:17 Tt. 15 como se referindo tanto a presbíteros propriamente quanto a ministros, teríamos, seguindo mesmo princípio, que chamarmos apenas os nossos pastores de presbíteros, já que eles assim são chamados "normalmente".

Outra questão é o uso do exemplo dos Estados brasileiros. Acho que, neste ponto, deveria ser levado em conta o fator geográfico, o qual pode mudar um pouco a natureza da comparação. Por exemplo, seria muito estranho para nós referirmo-nos a um Estado em específico como "República Federativa do Brasil" visto ser óbvio que ele faz parte do Brasil e nesta República está. Mas meu ponto é exatamente esse. A estranheza surge por um fator geográfico. Todos os Estados brasileiros estão dentro de um limite geográfico que os impossibilita de serem nomeados pelo nome da federação. 

Contudo, vamos considerar a possibilidade de existência de um Estado brasileiro em terras argentinas ou uruguaias. Seria incorreto se referir àquele Estado brasileiro como “República Federativa do Brasil"? Acredito que tal nome não causaria estranheza aos argentinos ou uruguaios. Acredito que isso poderia representar um pouco a nossa situação eclesiástica atual. A Confederação das Igrejas Reformadas do Brasil, por exemplo, não estão restritas aos mesmos limites geográficos, mas estão espalhadas pelo Brasil, entre muitas outras igrejas, dentre essas algumas que se chamam também de reformadas. Isso pode fazer necessário a identificação de que fazemos parte de uma parte da igreja de Cristo que se chama IRB (Igrejas Reformadas do Brasil).  

Acho que neste ponto devemos considerar a existência de duas verdades que aparentemente se chocam (paradoxo), mas que, na verdade, enfatizam coisas diferentes, como pode ser o caso de chamar conjunto de "igrejas" ou "igreja". Talvez a preocupação maior deva ser entender o conceito de uma confederação de igrejas não como uma denominação, mas como um conjunto de igrejas de Cristo que são a igreja (ou parte dela) de Cristo. E aí basicamente dois perigos são notórios. 

Primeiro, o modo como entendemos o que é a igreja local e as assembléias ligadas a ela. Se entendermos a igreja local como uma parte da igreja instituída e não como a igreja em si, nós certamente cairíamos no denominacionalismo, que é antibíblico; o que aconteceria da mesma forma se considerássemos as assembleias eclesiásticas como igrejas instituídas e não como apenas assembleias com autoridade de igrejas locais, sim, instituídas. 

Segundo, outra ameaça do denominacionalismo se reflete no modo como enxergamos as outras igrejas ao nosso redor. Se nos consideramos como A IGREJA, o modelo e a noiva mais querida de Cristo, cairemos sem sombra de dúvidas num denominacionalismo cruel e arrogante, pois estaremos evocando a idolatria de um grupo de igrejas separadas que se autodenominam A IGREJA. Isso colocaria um grupo de igreja numa categoria especial com uma identificação própria como se fosse, no final das contas, uma marca ou modelo. Esse não é o entendimento de igreja de Cristo, se considerarmos a palavra de Deus especialmente no Novo Testamento.

Por fim, gostaria de concluir dizendo que parece que a escolha entre "igreja" e "igrejas" para uma confederação está mais ligada a questões práticas e aplicativas que irão interferir no que queremos enfatizar acerca deste tema. Pessoalmente, prefiro o nome "Igreja Reformada em (de) tal lugar" à outra forma, contudo não teria problema em aceitar o contrário. Essa seria a minha preferência mais pelos perigos do que pelas razões teológicas. 

Iraldo Luna é seminarista das Igrejas Reformadas do Brasil. Ele concluiu os estudos acadêmicos em 2014 e está cumprindo estágio na Igreja Reformada em Maragogi/AL, neste ano de 2015.

Acesse para ver a postagem na íntegra:
https://www.facebook.com/notes/igrejas-reformadas-do-brasil/qual-é-o-nome-da-minha-igreja/333003866780818