terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A CRIAÇÃO DA MULHER

A CRIAÇÃO DA MULHER (Gn 2: 18-25 e Ef 5: 20-33)
Dr. Joel Beek

Querida congregação, Gênesis 2: 18-25 descreve de uma forma gráfica a criação da primeira mulher realizada por Deus. Começa com uma declaração marcante do Criador: ”Não é bom que o homem esteja só”. A negativa “não é bom” é enfática. Até então Deus fizera tudo bom; Ele pronunciou Sua benção sobre toda Sua criação. Aqui, pela primeira vez, encontramos que algo está faltando. Sem companhia feminina e uma parceira para a reprodução, o homem não podia realizar totalmente sua humanidade. Dessa necessidade surge a criação da mulher que será companheira e esposa de Adão.

A criação da mulher em Gênesis 2 tem conseqüência de longo alcance. Ela estabelece a fundamentação para as três áreas importantes do relacionamento de um esposo e de uma esposa dentro do casamento.

1) A mulher como uma auxiliadora idônea para o homem
2) A mulher feita por Deus como Seu trabalhomanual especial
3) A mulher feita para ser uma com o homem

Nosso texto é Gênesis 2.18-24
“Disse mais o Senhor Deus: não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea. Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este os chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles. Deu nome o homem a todos os animais domésticos, ; para o homem , todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea. Então, o Senhor Deus fé\z cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma de suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o Senhor Deus tomara do homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe. E disse o homem; esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa. Porquanto do varão foi tomada. Por isso, deixara o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se uma só carne”.

Com a ajuda de Deus, desejamos considerar os temas acima referidos:

1) A mulher feita como uma auxiliadora idônea para o homem.
A criação de Eva por Deus está colocada dentro do contexto da história da criação. A primeira parte dessa historia é a preparação do homem para a chegada da mulher. Adão foi feito à imagem de Deus. Ele foi preenchido com a glória dada inicialmente por Deus. E, contudo, Deus mostrou para Adão que, em toda a ordem criada, com toda sua variedade, nenhuma criatura adequada havia para ser sua companheira.

Deus escolheu um modo fascinante para ensinar esta lição a Adão. Deus ficou lado a lado com Adão enquanto uma grande variedade de animais passava diante de Adão. Enquanto eles passavam – da anta à zebra – Adão estudava cada animal e depois lhes dava nomes. Não foi uma nomeação arbitraria. Adão observou a natureza e o comportamento de cada animal. No fundo de sua mente ele deve ter imaginado se algum poderia ser apropriado para ser sua companheira. Contudo, nenhum havia. Como diz Gênesis 2.20 “Para o homem todavia, não se achava uma auxiliadora idônea”.

Depois que pôs nomes em todos os animais, Adão verificou que nenhum havia sido criado à imagem de Deus. Todos tinham um corpo e mesmo, em certo sentido, uma personalidade. Nenhum, porém, tinha uma alma. Adão não poderia ter qualquer comunhão com qualquer um deles a nível espiritual. Não importa quão bom fosse o relacionamento de Adão com um animal, algo ficava faltando. Deixe-me ilustrar.

Talvez você tenha um excelente relacionamento com seu cão. Tem com o animal um grande companheirismo. Você compartilha com ele, mostra-lhe afeição. Mas, todo seu companheirismo tem que ser a nível de um cão porque um cão pode comunicar-se apenas nesse nível. Sem dúvida Adão imaginava que se fosse para ter uma companhia, o companheiro deveria ser especialmente criado por Deus à Sua imagem, exatamente como ele próprio, Adão, havia sido.

Assim, Adão estava preparado para uma mulher e a mulher devia agora ser preparada para ele. Ela deveria ser criada como sua réplica perfeita no mundo. Homem e mulher foram feitos de modo diferente e, contudo, pelo ato criativo de Deus, eles deveriam ser mais semelhantes do que qualquer outra coisa na criação.

Eva foi criada como uma mulher perfeita. Que mulher admirável ela deve ter sido! Ao comentar sobre a criação do homem, Lutero disse que Adão deve ter sido um espécime extraordinário. Pensava ele que Adão deve ter superado os animais até mesmo nos detalhes em que eles eram insuperáveis; ele deve ter tido uma força maior que a de um leão, uma visão mais aguçada que a da águia. Se isso era verdade para Adão, que podemos dizer de Eva? Lutero pensava que Eva teria sido tão forte, ágil, perspicaz e brilhante quanto Adão. E mais, disse Lutero, ela deve tê-lo superado em beleza e graça. Isto podemos afirmar com certeza: Eva também foi criada com a glória primeira de Deus.

A despeito da excelência física, mental e moral de Eva, o verso 18 diz que ela foi feita “para” o homem, “uma auxiliadora idônea (ou adequada) para ele”. Nesta condição perfeita pré-queda, toda mulher tem um indício para a sua posição única, dada por Deus, no casamento. Ela deve ser uma “ajudadora idônea” para seu marido.

Gênesis 2:18 enfurece grandemente as feministas radicais como também, algumas vezes, é motivo de preocupação, senão de ansiedade, para outras mulheres. Falar de mulher sendo feita para o homem, ou da sua necessidade de ser obediente ao homem no casamento, é anátema. Muitas mulheres – e mesmo homens – acham tais idéias ultrapassadas, injustas e preconceituosas contra as mulheres.

Nossa natureza humana decaída nunca se agrada de renunciar a sua desejada independência. O homem não quer ser sujeito a Deus e a mulher não quer ser sujeita ao homem. O Rev. J. Fraanje escreveu uma vez que “independência – hoje talvez devêssemos dizer ‘autonomia’ – á a palavra do lado de dentro do portão que leva para fora do paraíso”.

Necessitamos de um pensamento claro nesta discussão hoje. Nós precisamos compreender, primeiro que tudo, que a palavra ajudadora não é um termo depreciativo. Deus nos criou para servi-Lo e para ajudar o nosso próximo. É uma honra para a mulher ajudar seu esposo, pois ajuda é uma palavra usada frequentemente, com refêrencia ao próprio Deus nos Salmos (10:14; 22:11; 28:7; 46:1; 54:4; 72:12; 86:17; 119:173; 121:1-2 NIV). Se Deus não está envergonhado de ser uma ajuda para pecadores caídos, porque deveríamos nós olhar com desdém para Eva por ser a “ajudadora” do seu não decaído esposo? Ser uma ajudadora idônea não é uma posição degradante. A forma verbal desta palavra significa basicamente auxiliar ou suprir aquilo de que um indivíduo não pode prover-se por si só. A Septuaginta a traduz com uma palavra que o Novo Testamento usa com o sentido de “médico” (Mt 15:25). Ela transmite a idéia de socorrer alguém aflito. Certamente uma esposa piedosa se deleita em satisfazer as necessidades do seu esposo.

Idônea vem da palavra que em hebraico significa “oposto”. Literalmente é “de acordo com o oposto dele”, significando que uma mulher complementará e corresponderá ao seu marido. Ela deve ser igual ao homem e ser adequado para ele.

De que maneira ela deve ser igual? Devemos pegar essa palavra igualdade que tanto ouvimos hoje em dia. Homens e mulheres são realmente iguais? Sim e não. Há pontos importantes nos quais homens e mulheres são iguais. (1) Ambos foram criados igualmente à imagem de Deus. Isto é, que os fez companheiros idôneos um pra o outro. Isto explica porque os animais não são companheiros adequados para nós. (2) Eles foram ambos, colocados sob o comando moral de Deus e, dessa maneira, lhes foram dadas responsabilidades morais. (3) Ambos foram culpados de desobedecer ao comando de Deus e foram, por isso, julgados por Deus por sua desobediência. (4) Paulo nos diz em Gl 3:28 que ambos, homem e mulher, são igualmente objeto da redenção graciosa de Deus em Cristo Jesus. (5) Como esposo e esposa, um homem e uma mulher são igualmente conclamados a deixar pai e mãe para unir-se um ao outro e para amar ao outro como uma só carne.

Contudo, em outro sentido, homem e mulher não foram criados iguais. Porque a mulher foi criada para o homem, eles não foram criados iguais em autoridade. Deus traçou uma estrutura de autoridade pra os homens, diferente das mulheres. No entanto, a desigualdade desta estrutura de autoridade não quer dizer que um marido tem vantagem sobre sua esposa ou que uma posição é melhor que a outra. Nem significa que uma posição é mais alta do que a outra. Nós temos que expurgar nossas mentes desse modo de pensar que é muito comum no mundo dos negócios dos nossos dias. Quanto mais alto estivermos na escada dos negócios da coletividade, muitos pensam, em melhores condições estaremos.

Não é isto que Deus tem em mente para o homem e a mulher. Na estrutura de autoridade dada por Deus, o marido e sua esposa submetem-se mutuamente a Cristo (Ef 5:21), então, sob Cristo, um ao outro, preenchendo as necessidades um do outro. Já no paraíso há glória e humildade tanto do homem quanto da mulher. A glória do homem é que ele é cabeça; sua humildade é que ele não está completo sem a mulher. A glória da mulher é que só ela pode completar o homem; sua humildade é que ela é feita do homem.

Após a queda estes papeis complementares surgem até mais fortes, especialmente para esposos e esposas que desejam modelar seu casamento em Cristo de acordo com as diretrizes de Deus. Paulo nos elucida sobre estes papeis em Efésios 5. O esposo deve amar sua esposa como Cristo amou sua Igreja – de modo real (Cristo concebeu que a imagem em si mesma, necessitava de purificação, v. 26 ), de modo intencional (i.e., para fazer as Igreja santa e sem macula v. 27) e de modo sacrificial (i.e., para cuidar da noiva como quem cuida do seu próprio corpo, vs. 28,29).

Por seu lado, a esposa deve mostrar ao seu esposo reverência e submissão, Paulo diz (vs. 22,33). Em outro lugar Paulo nos dá quatro razões por que:

1) porque a mulher é feita do homem (1 Co 11:3,8);
2) porque a mulher é feita para o homem (1 Co 11:9);
3) porque o homem foi criado primeiro (1 Tm 2: 12-13) e
4) porque o pecado entrou no mundo pela mulher (1 Tm 2:14).

Assim como o homem deve mostrar liderança amorosa, também a mulher deve mostrar submissão amorosa.

A submissão não é degradação. Ela é encontrada mesmo entre pessoas da Divindade; de fato, o casamento é um paralelo da Trindade divina, a este respeito. Os teólogos falam da Trindade essencial, a qual a Confissão de Westminster define como ”três pessoas da Divindade, o mesmo em substância, iguais em poder e glória”. Eles também falam da Trindade econômica, na qual vários membros da Divindade deliberada e voluntariamente submetem-se um ao outro na obra da redenção. O Filho se submete ao Pai como Mediador e servo. O Espírito Santo se submete ao Pai e ao Filho em sua obra salvífica. Paulo aponta para o paralelismo entre tais submissões e a submissão marital quando diz: “o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem e o cabeça de Cristo é Deus” (1 Co 11:3; ver também Ef 5:22-24).

Algumas feministas respondem a tais textos argumentando que a submissão faz parte da maldição agora anulada pela expiação de Cristo. Seus argumentos contudo, não cosideram a submissão entre as pessoas divinas nem o ato de que a relação subordinada da esposa para o esposo é baseada primeiro em Gênesis 2, antes da queda e da maldição.

A submissão dentro do casamento tem paralelo também com a Igreja que é a família de Deus. Embora as mulheres possam e devam exercer numerosos papéis nos mistérios da Igreja, Paulo deixa claro que o princípio da autoridade impede-as de serem oficiais na Igreja. Alem disso, esta submissão no casamento e na Igreja deve ser voluntária. Resumindo, se uma mulher não pode ser uma ajudadora submissa, amorosa para o homem que a pede em casamento, não deveria desposá-lo e muito menos um homem deveria propor casamento a uma mulher a quem ele não pretende mostrar uma autoridade sacrificial, amorosa.

2) A mulher feita por Deus como Seu especial trabalho manual
A mulher não é somente feita para o homem; ela é também feita por Deus como um ato especial da criação. Tanto o homem como a mulher foram criações especiais de Deus. Eles foram criados em igual dignidade. Gênesis 2:21-22 diz ”E o Senhor Deus fez cair pesado sono sobre o homem e este adormeceu; tomou uma das costelas e fechou o lugar com carne”.

Deus causou um profundo sono em Adão como um passo inicial na criação da mulher. Este “sono profundo” deve ter sido algo como uma anestesia hoje, e a operação que Deus realizou, semelhante à cirurgia médica. Deus extraiu uma das costelas do homem e preencheu o lugar vazio com carne, fechando a ferida.

Da costela, Deus então “fez” – literalmente, em hebraico, “edificou” ou “construiu” uma mulher. Deus miraculosamente, meticulosamente, belamente, laboriosamente, formou a mulher com Suas próprias mãos, fazendo-a cada pedacinho, tão especial quanto o homem que Ele havia criado antes.

Existe algo particularmente belo, até mesmo poético, sobre esta criação. A mulher é feita para o homem e, por isso, poder-se-ia pensar nela como uma serva do homem. Gênesis porém, não diz isto. Ao contrário, como coloca Matthew Henry: “A mulher não foi feita da cabeça do homem para governar sobre ele nem dos seus pés para ser oprimida por ele, mas do seu lado para ser igual a ele, sob o seu braço para ser protegida e perto do seu coração para ser amada”.

Então, o Pai amoroso apresentou ao homem a noiva que Suas próprias mãos tinha cuidadosamente formado. Ele a “trouxe para o homem” (v. 22b), o que é uma frase especial em hebraico que significa “apresentou-a ou conduziu-a ao homem”. A palavra também implica na entrega solene, formal da mulher dentro do vínculo do pacto matrimonial, que provérbio 2:17 chama “o pacto de Deus”. Deus, como criador e Pai da mulher, trouxe-a ao homem, como os puritanos costumavam dizer: “como o seu segundo eu, para lhe ser uma auxiliadora idônea”.

Ao trazer a mulher para o homem, Deus estabeleceu o casamento como a primeira, a mais fundamental das instituições humanas. Antes que houvesse governos ou igrejas ou escolas ou quaisquer outras estruturas sociais, Deus estabeleceu uma família baseada no respeito e no amor mútuos de um esposo e uma esposa. Todas as outras instituições humanas derivam-se desta. Da autoridade do pai vieram os sistemas patriarcais de governo humano os quais eventualmente dariam origem às monarquias e democracias. Da responsabilidade dos pais para educar os filhos vieram os sistemas de educação mais formais que chamamos de escolas e colégios. Da necessidade de cuidar da saúde vieram os médicos e os hospitais. Da obrigação dos pais de treinarem seus filhos no conhecimento de Deus vieram templos, sinagogas e igrejas. Todas as organizações humanas podem ser acompanhadas retrospectivamente até o lar, a família e, finalmente, até o casamento.

Adão a quem Deus despertou, reconheceu Eva imediatamente como sua companheira – o complemento perfeito para a necessidade que havia sido despertada nele. Em resposta ele explodiu numa espécie de cação nupcial, celebrando sua similaridade e união com a mulher, ao dar-lhe um nome.
Adão diz ”Esta, afinal” (v.23a) – i.e., “desta vez” – agora, finalmente, Adão encontra aquela que lhe corresponde. A íntima associação é enfatizada pelos seus nomes, desde que ela é chamada ”varoa” (ishah) porque ela foi tirada do varão (ish). A palavra hebraica para “varoa” é formada pela terminação feminina “-ah” à palavra “varão”. Uma diferença paralela seria entre leão e leoa, ou tigre e tigreza, assim Adão, por revelação divina, percebeu que a mulher havia sido tirada dele. Seu ato de dar o nome à sua esposa reforça sua liderança e autoridade sobre ela, mas seu nome indicou também que ele compreendeu a igualdade dela com ele, como sua parceira.

O milagre divino testemunhado por Adão encheu-o de alegria inexprimível, inspirando-lhe o lindo brado poético: ”Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada” (v. 23).

Adão e Eva entraram, então, num casamento sem pecado. “O matrimonio é honroso”, escreveu Mathew Henry, “mas este foi certamente o mais honroso matrimonio que jamais houve, no qual o próprio Deus teve desde o começo a participação direta”.

À canção nupcial de Adão, Deus acrescenta no verso 24 um projeto sagrado para o casamento que envolve um deixar, um juntar, e uma unidade: “Por isso, deixará o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. Estas são provavelmente as palavras de Moisés, o inspirado autor do Gênesis, que nos provê com este preceito sagrado que Jesus repete em Mateus 18 e Paulo repete em Efésios 5:31-32, dizendo: “Eis porque deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá a sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas me refiro a Cristo e à Igreja”. Estes três traços essenciais –deixar, unir (juntar) e unidade – ainda existem depois da queda, num bom casamento, em Cristo.

3) A mulher feita para ser uma com o homem
As três partes do projeto de Deus para o casamento são marcas importantes de um bom casamento:

1) Deixar. Deixar pai e mãe é um temendo reajustamento. A intimidade da unidade familiar deve ceder lugar para uma nova unidade familiar com uma nova cabeça. Esta nova unidade tem prioridade sobre a relação pai-filho. Há uma corrente de pensamento racional aqui: um deve deixar afim de juntar e dois devem juntar para se tornarem um só (“uma só carne”).

2) Juntar. Um par recém-casado deve unir-se concomitantemente. A palavra grega original pode ser traduzida como “cimentado ao mesmo tempo”. O recém-casado e a recém-casada formam um novo relacionamento inseparável, um do outro. A mulher torna-se parte do homem e vice-versa. Eles se tornam mais do que companheiro íntimo, melhor amigo e parceiro fiel, um do outro.

3) Unir (unidade). A expressão “uma só carne” é a construção hebraica mais forte para indicar uma mudança de estado. Isso já está subentendido no fato de ter Eva sido formada de Adão. O objetivo do casamento, contudo, não é apenas tornar-se um fisicamente, não importando quanto isso seja importante e realizador, mas em cada aspecto do casamento? Um só coração, um só no amor, um só em confiança, um só em propósito, em pensamento e, acima de tudo, um só em Cristo. Uma unidade que não seja mais profunda do que física, cedo dissipar-se-à e mais provavelmente terminará em um casamento infeliz ou num processo de divórcio. Porem um casamento que tenha uma unidade global de coração, de mente e atitude terá igualmente uma unidade física especial! A unidade física não produz um grande casamento, mas um grande casamento, em Cristo, produz grande unidade física tanto quanto grande intimidade intelectual, emocional e espiritual.

Unidade é o grande objetivo do casamento – ser um com Deus através de Cristo, depois, por causa desta unidade, ser um, um com o outro. Mas, como pode um pecador que se separou de Deus tornar-se um com deus? Unicamente através do Salvador, Jesus Cristo, que se comprometeu no deixar, no juntar e na unidade em atrair e ganhar Sua noiva. Paulo coloca isso dessa maneira: “Grande é o mistério, mas eu me refiro a Cristo e à Igreja” (Ef 5: 32). Aqui está como Ele fez isto:

(1) Cristo deixou seu pai voluntariamente. Ele deixou a coroa, o trono, a corte de glória para vir a este mundo buscar Sua noiva. Ele suportou uma dilacerante separação do Seu Pai, na cruz. Ele pagou assim o preço do dote por Sua noiva a fim de que ela se tornasse parte do Seu corpo, Sua carne e Seus ossos.

(2) Na cruz do Calvário, Cristo juntou-se a Sua noiva. Enquanto Ele estava morrendo, ela foi misticamente formada dEle, como o segundo Adão, enquanto estava em profundo sono. Assim como a mulher veio do lado de Adão para simbolizar o seu estar unido concomitantemente, assim também do lado ferido, sangrando, do nosso Salvador, foi tirada a Igreja, por assim dizer, para nascer, viver e ser unida com seu Salvador. Este é, realmente, um grande mistério!

(3) A maior parte deste mistério, no entanto é: “Se tornarão os dois uma só carne”. A igreja de Deus, diz Paulo, constitui a plenitude total de Cristo como mediador. Ele é a cabeça; a igreja é o corpo. “E, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1. 22-23). Esta união mística será aperfeiçoada um dia no céu, numa união ideal, indestrutível.

Quando nascemos de novo pelo poder regenerador do Espírito Santo, nós nos tornamos pessoalmente unidos com Jesus Cristo. Nos tornamos “um em Cristo”. Por isso é que Paulo jamais se cansou de descrever um cristão deste modo. Em suas epistolas Paulo usa esta frase ou uma similar – em Cristo, em Cristo Jesus ou nEle – pelo menos 164 vezes. Esta é a maneira favorita de Paulo para descrever um cristão.

Por exemplo, Paulo escreve: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura”, ou como está no original “uma nova criação” (2 Co 5: 17). Por estar unida com Cristo, uma pessoa se torna uma nova criação. Ela é uma em Cristo; ela está unida com Cristo. Igualmente, Paulo dia em efésios 1:3 “Bendito o Deus e pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo”.

A união do crente com Cristo é profundamente íntima. Quando Paulo fala de união com Cristo, ele usa um prefixo especial, em grego, melhor traduzido como “co-”, significando que o laço é indissolúvel. Literalmente ele diz em gálatas 2:19: “estou co-crucificado com Cristo”. Isto é, quando Ele morreu, num sentido eu também morri. Em Romanos 6:4, quando Paulo fala de ser glorificado juntamente com Cristo, ele está dizendo que a intimidade do união do crente com Cristo é tão grande que há um sentido no qual, quando Ele foi crucificado, om crente foi também crucificado; quando Ele morreu, o crente também morreu; quando Ele foi sepultado, o crente tamb´pem foi sepultado; quando Ele foi levantado de entre os mortos, o crente também foi levantado; quando ele ascendeu, o crente também ascendeu. Quem pode compreender esta união mística? Um poeta disse:

Um na tumba, um quando Ele se levantou,
Um quando Ele triunfou sobre Seus inimigos,
Um quando no céu Ele se sentou,
Enquanto serafins cantavam que o inferno derrotou.
Com Ele, o nosso cabeça, prevalecemos ou caímos
Nossa vida, certeza, nosso tudo.

Oh, que dignidade existe em tudo isto – dignidade na criação de Eva, como uma mulher, uma com seu marido, partilhando esta dignidade com ele! E agora, através da fé, dignidade na criação da noiva de Cristo, para ser feita um com o esposo – para partilhar Sua dignidade e glória, ser amada por Deus como uma parte daquele mesmo amor com que Deus ama Seu próprio Filho! Verdadeiramente, não há dignidade como a dignidade da criação – de ser feito a verdadeira noiva de Jesus Cristo.

Sermão do Dr. Joel Beeke, presidente e professor de Teologia Sistemática e Homilética no Seminário Teológico Reformado Puritano, e pastor da Heritage Netherlands Reformed Congregation of Grand Rapids, Michigan. (Publicado na revista Os Puritanos, edição nº 02 de 2004)

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