quarta-feira, 21 de junho de 2017

DOUGLAS WILSON, TEÓLOGO E ESCRITOR REFORMADO, ALIADO DA VISÃO FEDERAL



por Lucio Manoel

Douglas Wilson é pastor nos Estados Unidos, ministro da Christ Church, na cidade de Moscow, estado do Idaho. Participou da fundação da Logos School, é ativo em várias organizações destinadas a promover a cosmovisão cristã e tem participado de debates apologéticos.

É autor de vários livros. No Brasil já estão publicados alguns na área de família, como Futuros homens, Reformando casamento e o mais recente, Fidelidade, publicado em 2017. Estes livros foram publicados pela editora CLIRE. Além destes, O ateu em delírio, Cinco cidades que dominam o mundo, Persuasões, O cristianismo é bom para o mundo?, Educação clássica e educação familiar (participação) e Eu sei em quem tenho crido (participação).

Wilson é reconhecido como cristão conservador, mas não deixou de envolver-se na polêmica sobre Visão Federal. Recomendo o artigo escrito por David Engelsma, intitulado Visão Federal. Esta abordagem transita no campo reformado, não obstante ser rejeitada pela maioria das igrejas reformadas conservadores e teólogos reformados, como não confessional. 

Entre os pontos mais importantes defendidos pelos aderentes da Visão Federal, podem ser destacados: justificação pelas obras, pacto da graça estendido aos filhos de todos os pais crentes, a não garantia de salvação dos eleitos, garantia de regeneração aos batizados, a possibilidade de queda daqueles que foram unidos a Cristo. Talvez a abordagem mais recente sobre estes temas está no recente livro de Alan Rennê, publicado pela editora Os Puritanos, A Visão Federal e os Padrões de Westminster

Apesar dos artigos que estão inundando a rede mundial de computadores, os livros publicados pelos adeptos da Visão Federal ainda são poucos.

Nos Estados Unidos várias igrejas tiveram de se posicionar sobre o assunto. No Brasil, os lampejos da Visão Federal já brilham em faculdades cristãs.

Fiquem de olhos bem abertos. 






#LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

sexta-feira, 16 de junho de 2017

ELIAS E ELISEU, JOÃO E JESUS


É notável que o próprio Antigo Testamento termine relembrando Elias e proclamando a sua volta (Ml 4.56). Os escritores do Novo Testamento também fizeram um extenso uso das narrativas de Elias e Eliseu. Mateus fornece um bom exemplo de como os autores neotestamentários desenvolveram esses materiais.

  O primeiro evangelista traça paralelos literários entre as vidas de Elias e Eliseu e as de João Batista e Jesus. Ele apresenta João como o cumprimento da profecia de Malaquias de que Elias voltaria (Ml 4.5) e caracteriza Jesus como o novo Eliseu. É provável que os judeus do tempo de Jesus esperassem que Elias ressurgisse literal e fisicamente da sepultura e, portanto, quando João Batista foi questionado se era Elias, ele respondeu: “não sou” (Jo 1.21). Ao menos no início de seu ministério, João Batista parece não estar consciente de que cumpria o papel do esperado Elias. Por outro lado, Jesus descreveu João como “o Elias que estava para vir” (Mt   11.14; 17.12), e Mateus segue esse caminho para provar como aconteceu.

1.Elias era conhecido pelo modo peculiar de se vestir. Quando Acazias enviou mensageiros para consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom, os emissários se depararam no caminho com uma figura misteriosa que os mandou de volta ao rei. Quando o rei lhes perguntou: “Qual era a aparência do homem que vos veio ao encontro?”, os mensageiros responderam: “Era homem vestidos de pelos, com os lombos cingidos de um cinto de couro” (2Rs 1.7,8). A partir dessa mínima descrição, o rei soube imediatamente que seus convidados haviam se encontrado com Elias. Quando João Batista começou sua pregação, Mateus o apresentou dizendo: “Usava João vestes de pelos de camelo e cinto de couro” (Mt 3.4). Essa singularidade indumentária evocava a memória de Elias.

2.Ao longo de suas vidas, Elias e João Batista enfrentaram um poder político hostil. Em particular, o principal antagonista de ambos foi uma mulher que atentou contra suas vidas. Para Elias, fora Jezabel (1Rs 19.2,10,14), enquanto para João, foi Herodias (Mt 14.3-12).

3.Elias e João Batista ungiram seus sucessores no rio Jordão. Eliseu acompanhou Elias ao Jordão e pediu-lhe que uma porção dobrada do espírito de Elias também repousasse sobre si (2Rs 2. 9-14). Quando João batizou Jesus no Jordão, ele viu os céus se abrindo e o Espírito de Deus descendo sobre o filho de Deus (Mt 3.13-17). Elias foi o precursor de Eliseu, da mesma forma que João Batista o foi para Jesus. Lucas também trabalha esse tema: quando o nascimento de João Batista foi predito a seu pai, Zacarias, o anjo Gabriel disse que João viria “adiante do Senhor no espírito e poder de Elias” e que João cumpriria a missão atribuída a Elias por Malaquias: “Para converter o coração dos pais aos filhos” (Lc 1.17; Ml 4.6).

4.Talvez não exista nem uma outra parte do Antigo Testamento tão farta em milagres quanto a narrativa de Eliseu . Após conceder a porção dobrada de espírito perdida pelo profeta, Deus demonstrou sua aprovação a Eliseu e testificou a mensagem por ele proclamada através dos milagres que acompanharam o seu ministério. Do mesmo modo se deu a multiplicação de milagres quando Deus testificou o ministério do seu próprio filho (Hb 2.3,4). Supunha-se que o aparecimento de Elias inauguraria “aquele grande e terrível dia do Senhor “,   o dia em que Deus julgaria o mal, enquanto protegeria e preservaria seu povo. Durante sua prisão, João Batista ouviu que Jesus estava ensinando e pregando na Galiléia. Por isso, João enviou mensageiros para que perguntassem a Jesus: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?”. Mateus relata o que Jesus disse aos discípulos de João: “Ide e anunciai a João o que estás ouvindo e vendo: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11.4,5). Essa é em grande parte a lista dos milagres de Eliseu: ele restabeleceu visão a um cego (2Rs 6.18-20), curou a lepra (2Rs 5), trouxe um morto a vida (4.32-37; 8.4-5; 13.21) e trouxe boas – novas ao destituído (1-7; 7.1-2; 8.6.). Tal lista de milagres de Eliseu se confunde com a do servo prometido do Senhor (Is 61.1-3). Jesus, com efeito, estava revelando  a João: ”O sucessor de Elias chegou. Eu sou aquele que você está procurando”.           
Retirado do livro Introdução ao Antigo Testamento. Raymond B. Dillard e Tremper Longman III; tradução Sueli da Silva Saraiva. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 160-161


sábado, 6 de maio de 2017

O CONSERVADORISMO DE LUTERO, CURIOSAMENTE INFLAMA O REVOLUCIONISMOEVANGÉLICO DE SEUS DIAS

  
por Lucio Manoel

A Reforma não aconteceu do nada. A atitude de Lutero, fixando as 95 Teses na porta da capela do castelo de Wittenberg, também não. A Europa estava passando por sérias transformações sociais, mas também políticas, havia muito tempo. A religião andava nestas esteiras, não sem elas ou fora delas [1].

A Europa feudal criara um sentimento de opressão dos príncipes sobre os operários. Os grandes centros estavam mais propensos às mudanças, por causa de seus constantes contatos com as novidades que chegavam de toda parte, mas as zonas rurais não estiveram à parte do fenômeno de renovação da fé evangélica que o monge agostiniano havia exacerbado.

A religião protestante oferecia um ingrediente novo aos anseios por libertação, da opressão sentida pelas pessoas comuns em relação ao domínio dos príncipes: a descoberta da fé num Deus gracioso, que renovava a esperança de uma vida mais justa, e de liberdade.

Dentro das igrejas, as aspirações por mudanças já eram sentidas séculos antes de Lutero, mas agrava-se imensamente às portas do século XVI. As mudanças expectadas são essencialmente religiosas. O Reformador alemão busca essas mudanças. Esse renovado fervor por mudanças logo se espalha pela Alemanha. De dentro da igreja, para as famílias, para as ruas. E logo se perceberá que esse fervor religioso e aspiração por mudanças na religião traz consigo uma espírito de transformação  social.  

Some-se às tensões crescentes no meio dos operários camponeses as tensões entre as lideranças dos príncipes com a igreja e com o imperador da Alemanha. Não fica de fora o conflito advindo da classe mercantilista, que ganhava força com o aumento do poder econômico da burguesia. A Alemanha está prestes a experimentar os resultados de tantas tensões combinadas.

A Reforma, que inicialmente se mantinha essencialmente como movimento religioso, logo avançaria para influenciar os campos político e social, sob risco de estagnação. Estagnação essa que acabou acontecendo na Alemanha posterior, mas não no restante da Europa.

Ainda na Alemanha, as populações que se sentiam oprimidas pelos príncipes são despertadas pela reforma religiosa em desenvolvimento por meio de Lutero. O Reformador enfatizava a nova vida como matéria de fé. Essa nova vida estava associada à busca de uma terra melhor, onde a justiça fosse alcançada por todos.  Esse despertamento ganhou a Alemanha luterana, acirrando as tensões entre príncipes e populações operárias, seja na zona rural, seja nos centros urbanos. 

Porém, enquanto Lutero estava mais interessado na reforma religiosa, ambos lados das crescentes tensões, principados e operariados, serviam-se da reforma religiosa de Lutero para assumir posições opostas nos crescentes conflitos. 

Lutero manteve-se em boa medida fora dos conflitos, preocupado em levar a religião protestante ao próximo nível de purificação. O operariado, servindo-se da autonomia da consciência em questão de adoração, em relação à hierarquia romana, presente nos discursos de Lutero, desenvolviam um espírito revolucionário. Do outro lado, os príncipes, servindo-se da dicotomia promovida por Lutero entre a igreja e o governo civil, pois ele defendia que em matéria de solução dos conflitos sociais e políticos, era direito inalienavel dos príncipes, como ministros de Deus, promovê-lo, esmagava os motins que surgiam em todo canto. De fato, Lutero defendia firmemente que esse direito dos príncipes em assuntos civis fora ortogado diretamente por Deus, portanto a resistência aos principados não devia ser tolerada. Com esse apoio, os príncipes alemães usaram suas prerrogativas de governo para conter violentamente os atos revolucionários considerados subversivos à boa ordem que Deus deseja para este mundo. 

Em vista da posição de Lutero de, por um lado, não apoiar as aspirações do operariado por uma condição melhor de vida, e, por outro lado, de ficar ao lado dos príncipes na solução dos conflitos, rendeu ao Reformador a fama de conservador. Por outro ângulo, porém, ainda que sem um plano orquestrado, Lutero ofereceu um ingrediente poderosos para uma revolução operária, começando na Alemanha, mas que logo se estenderia pelo restante da Europa: a esperança em um mundo mais justo. Para os operários Lutero serviu como um profeta. 

Como diz Biéler, “Por sua essência, a Reforma evangélica é uma força de renovação social autônoma, nem conservadora nem revolucionária” (p. 65). No entanto, a posição de Lutero em relação aos príncipes, como sendo estes os responsáveis para por fim aos conflitos sociais rurais ou urbanos, colocou o Reformador no fronte conservadora. 

Não é sem justificativa que Lutero perde prestígio tanto entre os revolucionários do operariado alemão como da hierarquia romana. Os primeiros por não apoiar o que pensavam ser uma consequências de suas próprias doutrinas e o segundo por sua traição ao conservadorismo hierárquico, trocando-o pelo dos príncipes alemãs. Neste caso, porém, a renúncia de Lutero se dá ao conservadorismo das doutrinas romanistas, mantendo o conservadorismo da estrutura social, conforme perdurou nos principados alemãs.

[1] Para maior entendimento sobre este particular, consultar a obra de André Biéler “O pensamento econômico e social de Calvino; tradução de Valdyr Carvalho Luz. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 40-71”. 






LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil