sábado, 6 de maio de 2017

O CONSERVADORISMO DE LUTERO, CURIOSAMENTE INFLAMA O REVOLUCIONISMO EVANGÉLICO DE SEUS DIAS

  
por Lucio Manoel

A Reforma não aconteceu do nada. A atitude de Lutero, fixando as 95 Teses na porta da capela do castelo de Wittenberg, também não. A Europa estava passando por sérias transformações sociais, mas também políticas, havia muito tempo. A religião andava nestas esteiras, não sem elas ou fora delas [1].

A Europa feudal criara um sentimento de opressão dos príncipes sobre os operários. Os grandes centros estavam mais propensos às mudanças, por causa de seus constantes contatos com as novidades que chegavam de toda parte, mas as zonas rurais não estiveram à parte do fenômeno de renovação da fé evangélica que o monge agostiniano havia exacerbado.

A religião protestante oferecia um ingrediente novo aos anseios por libertação, da opressão sentida pelas pessoas comuns em relação ao domínio dos príncipes: a descoberta da fé num Deus gracioso, que renovava a esperança de uma vida mais justa, e de liberdade.

Dentro das igrejas, as aspirações por mudanças já eram sentidas séculos antes de Lutero, mas agrava-se imensamente às portas do século XVI. As mudanças expectadas são essencialmente religiosas. O Reformador alemão busca essas mudanças. Esse renovado fervor por mudanças logo se espalha pela Alemanha. De dentro da igreja, para as famílias, para as ruas. E logo se perceberá que esse fervor religioso e aspiração por mudanças na religião traz consigo uma espírito de transformação  social.  

Some-se às tensões crescentes no meio dos operários camponeses as tensões entre as lideranças dos príncipes com a igreja e com o imperador da Alemanha. Não fica de fora o conflito advindo da classe mercantilista, que ganhava força com o aumento do poder econômico da burguesia. A Alemanha está prestes a experimentar os resultados de tantas tensões combinadas.

A Reforma, que inicialmente se mantinha essencialmente como movimento religioso, logo avançaria para influenciar os campos político e social, sob risco de estagnação. Estagnação essa que acabou acontecendo na Alemanha posterior, mas não no restante da Europa.

Ainda na Alemanha, as populações que se sentiam oprimidas pelos príncipes são despertadas pela reforma religiosa em desenvolvimento por meio de Lutero. O Reformador enfatizava a nova vida como matéria de fé. Essa nova vida estava associada à busca de uma terra melhor, onde a justiça fosse alcançada por todos.  Esse despertamento ganhou a Alemanha luterana, acirrando as tensões entre príncipes e populações operárias, seja na zona rural, seja nos centros urbanos. 

Porém, enquanto Lutero estava mais interessado na reforma religiosa, ambos lados das crescentes tensões, principados e operariados, serviam-se da reforma religiosa de Lutero para assumir posições opostas nos crescentes conflitos. 

Lutero manteve-se em boa medida fora dos conflitos, preocupado em levar a religião protestante ao próximo nível de purificação. O operariado, servindo-se da autonomia da consciência em questão de adoração, em relação à hierarquia romana, presente nos discursos de Lutero, desenvolviam um espírito revolucionário. Do outro lado, os príncipes, servindo-se da dicotomia promovida por Lutero entre a igreja e o governo civil, pois ele defendia que em matéria de solução dos conflitos sociais e políticos, era direito inalienavel dos príncipes, como ministros de Deus, promovê-lo, esmagava os motins que surgiam em todo canto. De fato, Lutero defendia firmemente que esse direito dos príncipes em assuntos civis fora ortogado diretamente por Deus, portanto a resistência aos principados não devia ser tolerada. Com esse apoio, os príncipes alemães usaram suas prerrogativas de governo para conter violentamente os atos revolucionários considerados subversivos à boa ordem que Deus deseja para este mundo. 

Em vista da posição de Lutero de, por um lado, não apoiar as aspirações do operariado por uma condição melhor de vida, e, por outro lado, de ficar ao lado dos príncipes na solução dos conflitos, rendeu ao Reformador a fama de conservador. Por outro ângulo, porém, ainda que sem um plano orquestrado, Lutero ofereceu um ingrediente poderosos para uma revolução operária, começando na Alemanha, mas que logo se estenderia pelo restante da Europa: a esperança em um mundo mais justo. Para os operários Lutero serviu como um profeta. 

Como diz Biéler, “Por sua essência, a Reforma evangélica é uma força de renovação social autônoma, nem conservadora nem revolucionária” (p. 65). No entanto, a posição de Lutero em relação aos príncipes, como sendo estes os responsáveis para por fim aos conflitos sociais rurais ou urbanos, colocou o Reformador no fronte conservadora. 

Não é sem justificativa que Lutero perde prestígio tanto entre os revolucionários do operariado alemão como da hierarquia romana. Os primeiros por não apoiar o que pensavam ser uma consequências de suas próprias doutrinas e o segundo por sua traição ao conservadorismo hierárquico, trocando-o pelo dos príncipes alemãs. Neste caso, porém, a renúncia de Lutero se dá ao conservadorismo das doutrinas romanistas, mantendo o conservadorismo da estrutura social, conforme perdurou nos principados alemãs.

[1] Para maior entendimento sobre este particular, consultar a obra de André Biéler “O pensamento econômico e social de Calvino; tradução de Valdyr Carvalho Luz. 2 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 40-71”. 






LucioManoelVDM
Lucio Manoel é pastor missionário da Igreja Reformada de Maceió, Bel. em Divindade pelo Instituto João Calvino, em Recife/PE. Lucio Manoel é colaborador do Projeto Dordt-Brasil e Refo500 Brasil

quinta-feira, 23 de março de 2017

CALVINO, GENEBRA E AS CAMADAS DO SAGRADO - Dr. Luiz Fabiano de Freitas


Calvino, Genebra e as camadas do sagrado

Dr. Luiz Fabiano Tavares
A cidade Suíça de Genebra representou importantíssimo papel na história da Reforma. Em 1526 os cidadãos de Genebra romperam com a casa aristocrática de Saboia, que dominava a região, fundando uma república. Já nesse tempo ideias reformadas circulavam na cidade e em 1535 o conselho governante rompeu laços com a Igreja Católica, adotando formalmente a Reforma no ano seguinte. Nas décadas subsequentes Genebra recebeu grande quantidade de refugiados que fugiam de perseguições religiosas, especialmente vindos da França. O mais famoso desses refugiados, sem qualquer dúvida, é João Calvino (1509-1564), que no ano de 1541 se instalou definitivamente na cidade, tornando-se nos anos posteriores um dos mais destacados pensadores reformados.
O viajante que visite Genebra poderá encontrar inúmeros testemunhos de sua história e da importância da Reforma na formação da cidade, inclusive no belíssimo Museu Internacional da Reforma. A pequena distância também poderá visitar a Catedral de São Pedro, onde Calvino pronunciou a maioria de seus sermões. Curiosamente, a atual fachada do prédio não data da época do reformador, tendo sido reconstruída no século XVIII, seguindo projeto do arquiteto italiano Benedetto Alfieri, em estilo neoclássico, então em voga, tomando uma forma que imitava os antigos pórticos gregos e romanos.
[Imagem A – Legenda: Antiga fachada da igreja em gravura realizada em 1730 por Robert Gardelle (esquerda) e a atual fachada, retratada em 1809 por Christian Gottlieb Geissler (Acervo da Biblioteca de Genebra).]
Adentrando o edifício, todavia, o visitante encontra a antiga nave, cuja decoração simples e elegante deriva dos esforços dos primeiros reformadores, cujo programa estético e eclesiástico determinava a eliminação de elementos decorativos considerados supérfluos ou excessivamente luxuosos. É interessante sentar ali e imaginar como era o culto à época da Reforma e os personagens que ali circulavam naquele período, como o próprio Calvino, mas também pessoas direta ou indiretamente envolvidas com a experiência da França Antártica (breve experiência de colonização francesa na Baía de Guanabara), como Jean Crespin, Pierre Richer ou Jean de Léry.
[Imagem 1 – Legenda: No interior da igreja é possível notar a estrutura arquitetônica gótica aliada à decoração simples elaborada pela Reforma. Ao fundo, o púlpito onde o próprio Calvino pronunciava seus sermões. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
No entanto, a catedral guarda outras surpresas... Seu subsolo é um riquíssimo sítio arqueológico, escavado desde 1977 e hoje aberto à visitação. Na verdade, a área já era ocupada há dois mil anos, antes mesmo da chegada dos romanos à região. Não à toa, ali se situava o túmulo de um chefe alobrógio - da tribo celta dos Alobrógios. É difícil dizer se era mesmo um chefe – é sempre saudável desconfiar da precisão de identificações arqueológicas. Em todo caso, ali jaz um guerreiro celta do século I a.C.
[Imagem 2 – Legenda: O bem conservado túmulo de um guerreiro alobrógio lembra os antigos habitantes da região. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
A certa distância dali se encontra um pequeno tesouro monetário enterrado no mesmo século. Note-se que com o tempo e a ação química da umidade as moedas se fundiram num bloco maciço. É interessante observar que entre algumas etnias celtas esses enterramentos de moedas (e outros objetos) correspondiam a uma forma bastante comum de culto a divindades ctônicas (subterrâneas). Por sinal, isso é particularmente verdadeiro em relação às tribos helvéticas, como mostra o famoso exemplo do lago de La Tène, onde eram atiradas oferendas. Tanto o túmulo quanto as oferendas monetárias mostram que aquele era um local sagrado, onde os mundos dos vivos, dos mortos e das divindades se encontravam.
[Imagem 3 – Legenda: O enterramento de moedas testemunha as práticas religiosas dos antigos alobrógios. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
O sítio arqueológico também preserva vestígios de que logo após a conquista romana o local foi transformado num templo. Esses vestígios são compostos principalmente por elementos arquitetônicos como capitéis de coluna ou alguns arcos. Curiosamente, essa camada enterrada corresponde à atual fachada de inspiração greco-romana, lembrando que a história e os estilos artísticos muitas vezes compõem complexas e inesperadas espirais. Os construtores da época romana dificilmente poderiam imaginar que seu modelo arquitetônico seria reutilizado no mesmo local, tantos séculos depois...
Por volta do século IV d.C. o local começou a ser utilizado como templo cristão, sofrendo sucessivas ampliações e alterações até o século XII. Por exemplo, podemos ver um batistério muito bem conservado, alimentado por um engenhoso sistema hidráulico. A forma e as dimensões do batistério remetem à propagação do cristianismo na Europa durante a Alta Idade Média, em que muitos se tornavam cristãos já adultos, tendo sido educados em cultos pagãos, marcando também uma outra fase do Catolicismo, em que era menos comum o atual costume de batizar crianças.
[Imagem 4 – Legenda: É possível perceber na direção superior direita o ponto terminal do encanamento que alimentava o batistério. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
Também é possível ver vestígios do antigo coro da Igreja, com sua simpática decoração geométrica esculpida na pedra, característica das edificações da Alta Idade Média, lembrando as antigas e profundas ligações entre música e espiritualidade, comuns a diversas denominações cristãs. Séculos mais tarde Calvino enalteceria a pureza e simplicidade do louvor através do canto a capella.
[Imagem 5 – Legenda: Esses entalhes rústicos e despojados talvez combinassem com a elegante simplicidade mais tarde almejada pelos homens da Reforma. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
Nesse mesmo período também foi instalado um claustro ao lado da igreja, lembrando a importância do monasticismo na história do Cristianismo durante a Idade Média. As celas dos monges era aquecidas por um engenhoso sistema de calefação radial, que nos meses mais frios distribuía ar quente através de tubulações sob o piso.
[Imagem 6 – Legenda: O sistema de calefação ajudava a enfrentar o rigoroso inverno dos Alpes. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
No fim da Idade Média o bispo local ainda contava com acomodações luxuosas do outro lado da Igreja, incluindo uma sala de recepção com sofisticada pavimentação decorativa, parcialmente conservada.
[Imagem 7 – Legenda: Os elaborados mosaicos contrastam com a simplicidade do atual piso da igreja, metros acima. (Fotografia do acervo pessoal do autor).]
No século XV o espaço foi amplamente reformado, e a catedral ganhou as formas góticas que ainda hoje ostenta em seu interior. Menos de 100 anos passados, com a adesão de Genebra à Reforma, a Igreja se tornou local de culto protestante, como já vimos.
É impressionante notar que ao longo de dois milênios e suas sucessivas transformações religiosas esse mesmo local permaneceu sempre sendo usado para funções sagradas. Coincidência?
Provavelmente não, a começar pela primeira mutação, logo após a conquista romana. Como se sabe, foi muito comum que antigos santuários celtas tenham sido "romanizados" pelas próprias populações nativas, originando inclusive estilos artísticos e arquitetônicos híbridos. Nesse sentido, era uma transformação muito mais arquitetônica que religiosa, embora as próprias divindades locais fossem muitas vezes assimiladas a divindades romanas equivalentes. É provável que os próprios Alobrógios tenham participado ativamente dessas transformações, em seu processo de integração ao mundo romano.
Por outro lado, a posterior apropriação católica daquele espaço teria finalidade muito distinta. A ocupação e cristianização de antigos santuários foi uma estratégia de catequese e conversão intensamente empregada pela Igreja Católica na época do Baixo Império e no início da Idade Média - que, por sinal, foi muito reutilizada durante a retomada da Península Ibérica aos muçulmanos e mesmo durante a conquista da América, transformando mesquitas ou templos ameríndios em locais de culto católico.  Nesse sentido, tratava-se de deliberada ação de proselitismo religioso, relacionado ao processo de expansão do Cristianismo do Mediterrâneo ao norte da Europa.
De certa forma, o mesmo pode ser dito da apropriação reformada no século XVI, quando a catedral católica sofreu drástica simplificação decorativa, como parte do programa protestante, especialmente através da eliminação das imagens. Desta feita, era um movimento de transformação dentro da própria tradição cristã que imprimia sua marca ao espaço e ao edifício.


Enfim, a Catedral de São Pedro em Genebra condensa não apenas dois mil anos de espiritualidade ocidental, mas ainda a densa trama de relações sociais, políticas e econômicas que engendraram todas essas transformações ao longo dos séculos. Suas paredes e seu solo guardam vivos e impressionantes registros da busca do ser humano pelo divino ao longo das eras, passando por diversas tradições religiosas e espirituais; as escavações arqueológicas no local mostram que os reformadores do século XVI caminhavam literalmente sobre séculos dessa longa aventura humana, constituindo mais um elo de uma longa corrente que mergulha no passado distante...








Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense; autor dos livros Entre Genebra e a Guanabara – A discussão política huguenote sobre a França Antártica (Topbooks, 2011) e Da Guanabara ao Sena – Relatos e cartas sobre a França Antártica nas Guerras de Religião (EdUFF, 2011).

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

IMAGENS SAGRADAS PODEM SERVIR COMO LIVRO PARA IGNORANTES?



por Vivius Silva Pimentel

As discussões dos últimos dias sobre a suposta validade de "imagens pedagógicas" de Cristo me levaram a reler o capítulo 11 do primeiro livro das Institutas. Trata-se dum capítulo em que se apresenta com especial clareza não apenas a sabedoria de Calvino, mas também a sua (nem sempre tão) fina ironia.

A certa altura, ao discutir o argumento de que imagens são "livros para indoutos", Calvino sai com esta tirada cavalar: "Há uma simples razão pela qual aqueles que têm igrejas a seu encargo entregam o ofício do ensino aos ídolos: é porque eles próprios são burros".

A grosseria talvez seja desnecessária, mas o argumento que a precede é bíblico e valioso: tudo o que as imagens nos ensinam a respeito de Deus é necessariamente "fútil e falso". O madeiro é "ensino de vaidade", diz Jeremias (10.8), e a imagem de fundição apenas "ensina mentira", diz Habacuque (2.18). Fazer representações visíveis de Deus é absurdo não apenas porque "imagens corpóreas são indignas da majestade divina", mas também porque elas "diminuem o temor reverente e encorajam o erro".

Calvino também refuta o argumento (tão repetido nas últimas discussões) de que as imagens podem ser usadas apenas para "representar Deus" e não para adoração. Na verdade, ele toma o argumento de Agostinho, que, ao comentar o Salmo 113, condena também esse tipo "mais refinado" de religiosidade como sendo idólatra.

Como se estivesse lendo as discussões aqui no Facebook, Calvino também rebate quem o acusava de ser supersticioso ao ponto de rejeitar todo tipo de imagens, reconhecendo que pinturas e esculturas são "dons de Deus" para serem usados de modo digno e puro. Mas ele insiste: "pensamos ser ilícito dar uma forma visível a Deus, porque o próprio Deus o proibiu e porque isso não pode ser feito sem, em alguma medida, manchar a sua glória". Essa proibição divina se acha não apenas no Antigo Testamento, mas também no Novo, e Calvino faz uma interessante inferência de 1João 5.21, no qual o apóstolo nos exorta a nos acautelarmos não apenas do culto aos ídolos, mas dos ídolos mesmos.

É claro que ninguém é obrigado a concordar com as conclusões de Calvino, ao menos pelo simples fato de virem da boca do reformador. Mas é um tanto curioso que os argumentos sejam os mesmos rebatidos há quase cinco séculos e, apesar disso, não tenhamos visto muita interação com eles. O que me faz concluir algo sobre minha própria postura estes dias: se os que discordam não levam a sério o que escreveram os maiores defensores dessa posição, por que levariam a sério um verme como eu?

Como diria o Pernalonga... Isso é tudo, pessoal!



Presbítero da Igreja Presbiteriana da Aliança em Recife/PE. Bacharel e Mestrando em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Comentarista do Site Política Reformada.